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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Diana - um estudo

No começo do meu caminho, ouvia de outros praticantes que toda strega cultua Diana, e que isso é feito em grupos, geralmente familiares, que se baseiam em tradições super antigas. Há, inclusive, quem diga que esses grupos constituem um tipo de irmandade secreta, uma Sociedade de Diana, que se manteve através dos séculos, mesmo com a Inquisição e com todas as invasões, guerras e religiões que chegaram na Europa.

Mas aí, algumas coisas ocorreram na minha vida. Eu descobri que, na verdade, a deusa que guia meu caminho nesta vida é Deméter, uma divindade da terra profundamente ligada aos ciclos do Sol. E eu entendi porque, por mais que eu tentasse e cultuasse Diana, não me sentia ligada à sua energia.

Com esse processo todo de descoberta de Deméter em minha vida, passei a pesquisar mais sobre os deuses gregos, de uma maneira bem mais profunda. Juntando isso aos meus estudos da stregoneria e da religiosidade romana, li em algumas fontes - creio que na antropóloga Sabina Magliocco - que a Diana das streghe "modernas" é pouco citada em mitologias antigas. Ela é, na verdade, uma figura que começa a aparecer no folclore mediterrâneo na Idade Média, junto com sua filha, Aradia.

A hipótese mais aceita é que ela, na verdade, uma divindade latina pré-romana identificada com Ártemis por seus atributos de protetora da vida selvagem, das mulheres, dos partos e da caça. Vale ressaltar que, na Grécia, Ártemis não era tão identificada com a Lua e essa associação só ganhou força com os romanos. Seguindo nesse caminho, Diana também tem os atributos de "Bona Dea", denominação um tanto genérica usada pelos romanos para falar das deusas relacionadas à fertilidade da terra e das mulheres (como Ops, Ceres e Cibele).

A questão fundamental está aí: os deuses romanos/latinos assumem características dos gregos, mas há certas diferenças. Marte, por exemplo, é um deus de vegetação e poderio militar em Roma, enquanto na Grécia ele era um deus de carnificina e assassinato. Creio que, com Diana, o processo foi parecido: ela assumiu características da Ártemis grega, mas continuou com atributos de fertilidade que a outra deusa não poussuía, por ser uma das três divindades virginais do Olimpo.

Quando eu fui fazer esta pesquisa, achei que era meu momento de me "reconciliar" com Diana. Tentei entender seu papel nos cultos antigos, recapitulei o que eu sabia, o que eu ouvi de pessoas que a cultuam e somei tudo ao que me lembro dos livros do Charles Leland e do James Frazer - pesquisadores da bruxaria italiana e do culto de Diana, ambos do século XIX. Para mim, a deusa se mostra muito mais similar à Hécate Trívia do que à Ártemis. Ela tem os atributos lunares, férteis e mágicos da Trívia, em especial na sua forma de Mãe. Mas há, também, a liberdade da Donzela. E, porque não, o conhecimento e sabedoria da Anciã. [já havia colocado algo nessa linha no post Trívia e Diana]

Há, ainda, muitas streghe que cultuam Diana. Elas a tem como a rainha da natureza e das bruxas, consorte de Lúcifer/Dianus/Apollo Lucifero, deus da luz e do Sol. Pelos mitos registrados no livro "Aradia - Il Vagello delle streghe" ("Aradia - o evangelho das bruxas", de Charles Lelland), os dois teriam uma filha chamada Aradia, que desceu à terra, como sacerdotisa e strega, e ensinou aos oprimidos - se pensarmos no contexto medieval do mito, mulheres e serviçais - a magia e o culto à Diana. Com isso, eles se libertariam da opressão sofrida. Dizem que esses ensinamentos perduraram entre famílias e grupos, organizados como sociedades secretas, desde a Idade Média até hoje, e que alguns clãs praticantes da stregoneria - dentro de um contexto pagão - conservam esses ensinamentos.

Ela continua sendo identificada com a Lua, com a natureza indomada, com a vida selvagem, os nascimentos, a colheita e a fertilidade das mulheres. E é cultuada nas Luas Cheias.

Dicas de sites:

- Blog de uma strega que cultua Diana: Diana's Muse - http://www.dianasmuse.blogspot.com/
- Site do Raven Grimassi, sacerdote de uma tradição que cultua Diana - http://www.stregheria.com/
Imagens:

1- uma escultura em Baltimore, EUA, do Flickr
http://www.flickr.com/photos/50325108@N00/1365705535/
2 - uma imagem "streghe" de Diana como deusa da fertilidade
http://www.newprophecy.net/Diana_goddess_1.jpg
3 - ilustração de Aradia, filha de Diana e Lúciferhttp://caldeiraodeceridwen.sites.uol.com.br/aradia.jpg

Fiz esse texto para um grupo virtual em que participo, para um estudo de deusas lunares. Achei que tinha há ver com nosso tema aqui e talvez possa gerar algumas trocas interessantes.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Trívia e Diana

O Fernando, companheiro e amigo de listas e comunidades há uns anos, enviou uma dica muito legal na lista do Stregheria Pratica. Ele nos mandou o link de uma revista acadêmica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) chamada Calíope que tem alguns artigos bem legais. O que eu gostei foi "Elementos Religiosos nas Elegias de Tíbulo", da professora Zelia de Almeida Cardoso.

O foco do texto é sobre os símbolos e objetos que os romanos usavam para proteger suas casas, descobertos pela historiadora a partir de pesquisas e análises das evocações do poeta latino Tíbulo.
Os deuses citados no artigo como protetores são Priapo, Janus, Terminus, Ceres, Apolo e a Trívia - que, na verdade, é a versão "romanizada" de Hécate.

Um dos trechos que achei bem interessante e super há ver com a coisa toda da stregoneria é o trecho em que a autora relaciona a Trívia com Diana:
"(...) Quanto a Trívia, não podemos deixar de mencioná-la com certo destaque. Figura polivalente, deusa triforme (dea triformis)41, patrona da feitiçaria e das práticas mágicas, invocada nas doenças, dado o seu poder de curá-las, Trívia apresenta características nitidamente apotropaicas. Segundo Plessis e Lejay42, Trivia é um dos epítetos de Hécate, a “deusa dos espectros e dos espíritos”, que “pertence à religião popular e não figura no brilhante Olimpo das epopéias homéricas”. Sua verdadeira fisionomia só aparece depois do século V a.C., na Grécia, e sua natureza a associa, no culto e na literatura, a Ártemis/Diana, também considerada como hécate (do grego hekáte), “a que atira longe seus dardos”.

Ártemis caçadora se assemelha, portanto, a Hécate e, em Roma, as duas deusas, embora cada uma guarde algumas características específicas43, acabam por fundir-se numa mesma divindade. São muito numerosos os textos literários latinos que documentam essa fusão. Na Eneida44, Virgílio emprega a expressão tria uirginis ora Dianae (“os três rostos da virgem Diana”) como aposto de Hécate; em duas passagens, referindose à Sibila de Cumas e ao templo de Apolo, associa Trívia a Febo45, identificando-a com Diana; refere-se aos bosques de Diana, em Nemi, como “bosques de Trívia” ou “bosques de Hécate”46 e ao lago de Diana, perto
do qual havia um templo consagrado à deusa, como “lago de Trívia”47. Propércio48 e, mais tarde, Sêneca49 também procedem à assimilação das duas divindades (...)"

Eu tenho uma teoria - meio pretensioso dizer isso, mas não achei termo melhor -, de que Diana, numa correspondência com os deuses gregos, teria mais relação com Hékate do que com Ártemis. Foi bem interessante esse respaldo científico - mostra que não é esquizofrenia...

Fica a sugestão para pensar e debater. E trocarmos impressões sobre a associação das divindades gregas e romanas.

O link para ler o artigo todo está em http://www.letras.ufrj.br/pgclassicas/caliope12.pdf. É só correr o arquivo até a página 93.