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domingo, 25 de julho de 2010

Ísis e Deméter

Ísis e Hórus
Terminei a pouco a leitura de um artigo chamado "Isis and Demeter: Symbols of Divine Moterhood" (Ísis e Deméter: Símbolos de Maternidade Divina). Esse é um tema que me interessa bastante, tendo em vista que sou devota de Deméter e que a relação de sua figura com as imagens de outras deusas mães é sempre uma discussão bem vinda.

O que gostei no trabalho foi a iniciativa do autor de contradizer teorias anteriores que sustentam a semelhança entre as duas deusas e a hipótese de que os Mistérios de Eleusis (cultos secretos em honra à Deméter e à Perséfone, relacionados com imortalidade e renascimento) seriam simples adaptações dos mistérios de Ísis.

O autor, um acadêmico chamado Vincent Arieh Tobin, do American Research Center in Egypt (Centro de Pesquisa Americano no Egito), sustenta que as similaridades entre Ísis e Deméter são menores do que suas diferenças. Para ele, o ponto central da questão é que Ísis é uma deusa muito mais relacionada a questões políticas do Egito, como a posse do trono e a validação do poder do Faraó, do que Deméter. A deusa grega tem uma relação mais intensa com a natureza em si do que com a política, e parece ter sido menos influenciada por sistemas religiosos patriarcais do que Ísis teria sido. Além disso, ele defende que diversas divindades egípcias teriam relações com símbolos de maternidade - Nephtys, Hathor, Nut - enquanto que, dentro do pensamento mítico grego, Deméter é a deusa mãe por excelência.

O autor colocar que os gregos relacionaram ambas por seus mitos girarem em torno do tema da busca por um ente querido perdido e por serem "mães sozinhas" (single parent, no original). Mesmo aí, temos diferenças entre ambas. Ísis busca o corpo do marido morto, enquanto Deméter busca a filha viva; Ísis é a imagem da esposa devotada à memória e ao legado do marido, enquanto Deméter mesmo tendo tomado consortes, não se casa. Essa última referência, segundo Tobin, pode mostrar uma relação da deusa helênica com divindades ctônicas femininas da pré-história, que não tinham relação direta com nenhum consorte.

Deméter
Por fim, o pesquisador defende ainda que os mistérios de Ísis não são um atributo original dessa deusa, tendo sido aplicados a ela por gregos e romanos em períodos posteriores ao apogeu do Egito, sendo contemporâneos aos Mistérios de Eleusis. Logo, não seria possível que houvesse uma adaptação, nem que Deméter fosse um derivado direto, porém modifica, de Ísis. Ele afirma ainda, de passagem, que os cultos eleusinos derivam de mistérios Minóicos (cretenses), não egípcios.

Eu discordo de alguns pontos colocados pelo autor, como por exemplo de que Ísis é uma divindade mais complexa do que Deméter. Acho que ambas são complexas em seus próprios escopos. Mas em geral acredito que é um trabalho muito bom, que vale a pena ser lido. O único problema é que ele está em inglês e não existe tradução do material.

O PDF com o artigo pode ser baixado neste link.

Se alguém conhecer o autor e tiver mais informações dele (como biografia, áreas de interessa, universidade em que atua etc) eu agradeço, porque até agora não consegui encontrar muita coisa.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Oferendas para Deméter

Como eu sou muito boazinha (ô mentira deslavada... rs), neste post da série sobre culto à Deméter, resolvi colocar mastigadinho para vocês algumas dicas de oferendas para a Deusa.

Para ler os outros posts da série, cliquem aqui e aqui.

- Comida: carne de porco, trigo, comidas com grãos, pão;
- Bebida: cerveja, tanto de cevada quanto de trigo (tipo Weiss);
- Velas: verde, marrom, azul escura;
- Incenso: ópio, olíbano;
- Ervas: melissa;
- Flores: papoula;

Acho que textos e poemas são também uma boa oferenda. Se você não quiser criar nenhum, sugiro a leitura do Hino Homérico à Deméter (ou de um trecho, já que ele é gigante) e do Hino Órfico. Alguns autores que recontam os mitos também são legais, por exemplo, O Carlos Calasso e seu "As Núpcias de Cadmo e Harmonia".

Essas oferendas foram ideias tiradas de várias fontes, como site do Reconstrucionismo Helênico no Brasil, o Theoi Project, o livro "Archetypal Image of Mother And Daughter" (Karl Kereny) e de conversas com outros pagãos por aí.

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Ainda está rolando as inscrições para o sorteio de um exemplar do livro "Aradia". Para saber como se escrever, leia este post.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A relação de Deméter com a comida

Segundo post da série sobre culto a Deméter. Para conferir o primeiro, clique aqui.

Fazer pão sempre foi parte das minhas oferendas e do meu culto para Deméter. Primeiro, porque Ela é a Deusa que ensina a humanidade a isso. Segundo, porque seu principal domínio é o alimento. Além de tudo o que eu falei na primeira parte desta série, Deméter é essencialmente a deusa da comida.

Na Grécia Ela é - ou era- a Senhora dos Trigais. Ela é a mãe do trigo, a responsável pelo seu crescimento. Seu cabelo é retratado como dourado, por essa ser a cor do trigo maduro. E se pensarmos em uma sociedade na qual uma das bases da alimentação era o trigo, faz muito sentido ele ser identificado com uma divindade maternal e provedora.

Aqui no Brasil nós temos uma produção de trigo pequena, se comparada a outros países, concentrada na Região Sul. O clima frio de lá é o único no qual a planta se adapta por aqui. O trigo precisa de um tempo não muito quente, nem úmido demais, e por isso não se desenvolve em outras regiões do país. Então, em uma terra como a nossa, não acho errado cultuá-la como a senhora de todos os grãos, não só do trigo. Principalmente porque a base da nossa alimentação, o arroz e o feijão, são grãos.

Minhas oferendas para ela já comportaram soja, feijão, arroz e milho. E, sempre que possível, carne de porco, já que esse era seu animal sagrado. Segundo Karl Kereny em seu livro "Archetipical Images of Mother and Daughter", sobre os Mistérios de Eleusis, a purificação dos iniciandos era feita com sangue de porco e, depois de morto, o animal era assado e todos compartilhavam da carne. Tem relatos que contam que o templo de Deméter cheirava a carne assada.

Por isso eu sempre prezo pelo alimento nas oferendas de Deméter. E sempre que eu faço pão em seu nome, eu dou para as pessoas comerem. Se eu abro uma cerveja para Ela, separo um copo (que depois eu despejo na terra) para o altar, e o resto eu tomo. Evito ao máximo o desperdício nas oferendas de Deméter. Não acho que a deusa gostaria disso.

Para aqueles que estão começando uma aproximação com essa deusa, eu indico começar pela comida. Agradecê-la na hora das refeições é um primeiro passo. Lembrar Dela quando for cozinhar é outro. Oferecer um gole da sua cerveja para a deusa - pode ser a de cevada mesmo - também é uma boa forma de começar.

O que eu coloquei aqui é apenas um começo. Para se aprofundar no assunto, eu indico o capítulo sobre as deusas mães do livro "O Poder do Mito", de Joseph Campbell.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Quem é Deméter?

Primeiro post da série. Espero que gostem. Só que está um pouco grande...

Quando Deméter entrou na minha vida, em 2007, eu não sabia direito quem Ela era e não entendi, a princípio, porque uma deusas dessas ia estar comigo. Assim como a maioria das pessoas, eu atribuía à Deusa apenas atributos maternais que não tinham lugar na minha vida aos 21 anos. Mas aos poucos eu fui conhecendo a divindade, seus diversos atributos, suas formas de culto, suas oferendas... e assim eu entendi que, realmente, temos muito em comum.

Apesar de sempre lembrarmos do mito do rapto de Kore, um episódio que reforça o caráter materno de Deméter, essa não é sua única característica. A chave para entende-La é, na verdade, o pensamento de que Ela é uma deusa da terra e a patrona da agricultura. Por conta disso, ganha atributos de mãe: porque Ela é a terra fértil e cultivada que fornece o alimento dos humanos. Por isso seu nome significa, literalmente, Deusa-Mãe - das raízes Da, Deo ou Do, Deusa, e do sufixo Meter ou Mater, Mãe.

Foi Deméter quem ensinou Triptolemos a cultivar o trigo e a fazer o pão, e foi em seu carro puxado por serpentes que ele andou pelo mundo repassando seu conhecimento às pessoas pelo mundo. Por isso, é graças à deusa e sua benevolência que os mortais deixam de ser nômades e, assim, começam a constituir cidades e sociedades - já que, com a agricultura, eles não precisavam ficar se mudando toda hora em busca de comida. Por isso, Ela também é considerada uma deusa civilizatória, mesmo tendo uma intrínseca relação com a vida campestre por seus atributos agrícolas.

Atributos, esses, que ela não perde mesmo nos cultos urbanos, por ser uma deusa da terra. Com isso, podemos ter uma outra interpretação do mito do rapto de sua filha. Ele nos mostra claramente a transformação da plantação durante os vários períodos do ano: primeiro ela é a semente escondida na terra, que transforma-se em broto, amadurece e é colhida. Essa é a alegoria chave já que Kore, retorna na Primavera como o broto do trigo e vai para o Hades, no final do Verão, como a planta que é colhida e, portanto, morta. Mas como a agricultura - e a vida - consiste em ciclos, fica sua semente, que permite que ela seja plantada novamente e que tudo volte. Por isso Kore-Perséfone vai e volta, todos os anos, da Mãe para o marido, do marido para a Mãe.

Além dos seus ciclos com Kore-Perséfone, Deméter tem um papel importante como uma das Crônidas, os seis filhos de Cronos e Rhea. Ela é uma das mais velhas, nascendo logo após Héstia e antes de Hera. Para mim, as irmãs representam os três aspectos essenciais da constituição do genos (família) na maioria das pólis da Grécia: Ancestralidade (Héstia), Maternidade (Deméter) e Casamento (Hera). Porém, por ser uma deusa solteira, que toma consortes mas não se casa com eles, ela mantém uma certa independência que Hera não tem, e quem nem mesmo Héstia, que abdica do casamento e do sexo, possui.

Outra característica marcante de Deméter nesse aspecto é sua soberania. Ela é uma mãe de muitos filhos, inclusive de descendentes de dois reis entre os deuses, Zeus e Posídon. Além disso existe o romance famoso com o agricultor Iasion (que alguns autores dizem ser, na verdade, o herói Jasão), que gerou Pluto, o deus da riqueza. Mas, em nenhum momento, existe a citação ou a intenção de casamento entre Ela e seus amantes. Deméter é o tipo de mãe que entende os filhos como dela, não dos pais. Ela gera, alimenta, dá a luz e cria sem a interferência masculina - só na concepção. Há, ainda, um traço de características de deusas da soberania da terra, porque ela pode ser amante, pode gerar filhos dos reis, pode dar sua filha em casamento a outro rei, mas ela não se submete totalmente a nenhuma deles.

Portanto, Deméter é uma divindade da terra, da fertilidade, patrona da agricultura. É, ainda, fortemente associada à maternidade e à soberania da terra, que mesmo explorada pelo agricultor não é completamente domada. E é uma deusa de muitos epítetos e muitos domínios.

O culto a Deméter era essencial em diversas cidades gregas (como Atenas, por exemplo) e depois foi instituído em roma, quando Ceres foi associada à deusa grega. Os ritos públicos garantiam a sobrevivência do estado e garantiam que não haveria uma grande estiagem ou uma grande fome. Alguns rito, apenas para mulheres, eram voltados para os atributos de fertilidade e maternidade. E haviam, ainda, os ritos de mistérios - que são um post à parte nessa série.

Eu já fui questionada sobre o meu culto, sobre o por quê ser devota de uma divindade agrícola morando numa cidade como São Paulo. Apesar de não vermos, nós dependemos do que vem do campo. Mesmo que a gente compre cereais integrais em sacos plásticos no mercado, eles vieram de algum lugar que tinha terra e foram plantados em algum momento. Além disso, se pensarmos em Deméter como a deusa que possibilita a criação das civilizações sedentárias, nós não estamos errados em cultuá-las nas nossas cidades.

Vejo em Deméter muitos atributos que pagãos buscam na Grande Mãe cultuada pela Wicca, e até atributos de outras deusas da terra, dos panteões gregos e romanos e até de outras culturas, como a celta e a africana. Não estou dizendo que todos devem cultuá-la, obviamente, mas que ter essa visão nos ajuda a compreender os ciclos da terra e a necessidade de honrarmos uma deusa mãe, independente de qual for.

Fiz uma lista de mitos interessantes de Deméter. Coloquei os links do Theoi Project que, apesar de ser em inglês, é a fonte mais confiável na internet.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Dos Deuses e do reconhecimento dos Deuses




Quando se fala de uma divindade, é preciso entender que os atributos e as qualidades que ela rege são só uma parte ínfima de tudo que representa aquela divindade. É preciso analisar muito mais que isso quando se quer compreender de quem se trata uma personalidade divina. Uma lista de palavras é tão pouco, tão pequeno, perto de tudo que Eles são.
Acho que tem outros focos muito centrais, por exemplo:

-filiação/paternidade - quem são os pais e os filhos (se houver) dessa divindade? Através disso vemos a natureza dessa divindade se manifestar. Assim, por exemplo, Leto demonstra sua natureza imanente e celeste quando se pensa que ela é filha do brilho da lua e do arco do céu - portanto, uma substância um bocado sutil. E Apolo carrega os nomes da avó e da prima como epíteto, além de dividir epítetos com a irmã - o que traça uma clara elação entre ele e a família divina a que pertence. Os atributos de Zeus se manifestam em seus filhos, cada filho é desdobramento de uma faceta da personalidade do Pai. E assim vai.

-casamentos - do mesmo jeito, isso também explicita um bocado a natureza divina. Vênus e Marte para mim são o grande exemplo, mas Zeus e Métis é imbatível...

-epítetos Tem Deuses com 200, 300 epítetos, a maioria de significados diferentes. Mesmo Deuses menos conhecidos, tem uma diversidade de epítetos que deixa besta. Assim, a gente tem uma visão de como age aquela divindade, não simplesmente "mar" mas "a que veio pelo mar". Não simplesmente "caçadora", mas "a de flechas imbatíveis", "a Senhora do arco dourado". Não é só poetizar, é destrinchar o significado. O que nos leva a...

-papel dessa divindade nos mitos -muitos epítetos dizem respeito a mitos específicos. Mas além disso, a gente consegue, pelo modo como a divindade age no mito, perceber como ela é. Atena está sempre tramando alguma coisa, Ela pensa em curva, usa artimanhas. Leto é conhecida como a mais gentil, mas apesar disso, metade dos seus mitos é de vingança, o que podemos tirar disso? Zeus é sempre imponente, sem medo, habilidoso e sábio. Cronos é matreiro e soturno. Os mitos explicitam muitas coisas da personalidade dos Deuses.

E tem muito mais. Muito.

Como é possível se contentar com pouco quando se fala daqueles que São? Amplitude é o que Eles nos trazem, e é com amplitude que devemos busca-los. Enormes, eles nos abarcam. Estão acima da mera racionalização. Mas a busca por informação é aquilo que nos tráz a paixão que deve ser sentida.

E lembrar que culto aos Deuses é diferente entre a e b, acima de tudo, porque a e b estão em situações de vida diferentes, em épocas diferentes, com problemas e anseios diferentes, com métrica poética diferente. E não necessariamente que os Deuses sejam totalmente outros, só porque vestem túnica, toga, ou calça jeans.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Palestra: aliança com a deidade

Sábado foi dia de Tarde Esotérica no Espaço Viver Alternativo. A proposta foi que cada palestrante falasse um pouco de sua prática, assim, as conversas ficaram bem livres, bem ao gosto do freguês.


Decidi que falaria sobre aliança com uma deidade, pois é uma experiência muito importante na minha vida. Aliás, uma das mais importantes de alguns anos para cá.

A linha de pensamento nessa palestra, que acabou por se tornar uma conversa, na verdade, foi ir entendo como construímos uma identidade. Nascemos e somos parte de nossos pais. E a medida com que vamos crescendo, vamos criando uma identidade que primeiro é centrada em nós mesmos, e nesse momento, achamos que o mundo é feito de nós para nós. Assim são as crianças. Elas não conseguem ver mt além de si.

Depois, com as várias influências do meio em que vivem, da família, da escola, da cultura e de si, vão construindo pedaços. E muitas vezes isso é super interessante porque é com os pedaços de si que acabamos tendo em uma família palmeirense, por exemplo, a ovelha alvinegra (exatamente no caso da minha família... não imaginamos de onde minha irmã foi tirar o amor pelo Timão). Mas esse processo todo é muito rico, pois mesmo sendo parte de um grupo, passamos a assegurar uma certa individualidade. E a maturidade dessa individualidade nos faz ir para buscas mais profundas... e ai vem a espiritualidade...

Claro que alguns querem seguir os caminhos de seus pais, famílias ou grupos. Mas outros querem outros caminhos, querem se lançar.

Assim, antes de encontrar a deidade, vem a pergunta chave: Quem é você?

No curso que a Inês e a Sarah fizeram estudando a Teogonia de Hesíodo, fora dito que os Deuses escolhem seus favoritos pela capacidade que tem de representar aquela deidade na terra. E ai, mora um ponto vital: vc não escolhe... é escolhido.

Quando nos conhecemos a fundo - e nunca tão a fundo a ponto de dizer que não existe mais a conhecer - vamos vendo esses reflexos divinos em nós. E assim, nos dedicamos a conhecer mitos e de repente, mitos e histórias de uma deidade estão em sua vida. BAM! Esse é o momento.

Nem sempre simples... sempre uma surpresa. Descobrir quem te favorece acarreta uma série de responsabilidades e de compromissos. Os Deuses não nos servem. Nós os servimos. E quanto mais nos abrimos para eles, mais vamos entrando em contato com um plano muito superior ao nosso... vamos aprendendo mais e vamos trazendo um andar honrado para as nossas vidas.

Por fim, conversamos sobre se é possível alguma coisa "te tomar" de assalto a alma. Não acredito nisso... sabe por quê? Porque o controle é seu... tal qual o compromisso... e mais que isso ainda, se tudo tem hora e tem lugar, como um espírito qualquer toma alguém sem permissão? Ok, e os Deuses com isso? Bem, quando os Deuses nos tomam, em seus momentos apropriados, quando são chamados, Eles fazem manifestar uma parte deles... aquela que está dentro de nós. E não existe outro jeito senão com preparação e vontade e compromisso de fazer com isso aconteça de forma harmoniosa.

Deixar manifestar é uma forma de fazê-los vir a Terra... não a única, mas uma delas... Que cada um lide com isso da melhor maneira possível.

E que de qualquer forma, a idéia é deixar claro que quando nos conhecemos, conhecemos aos Deuses!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Santo da família


Hoje é dia de Santo Antônio. Apesar da maioria das pessoas "do nosso meio" estarem pensando na sexta-feira 13, eu estou pensando no santo que acompanha a minha família há três gerações. Meu bisavô, meu avô e minha mãe têm suas histórias com ele. E posso dizer uma coisa: nunca perdemos nada e nunca faltou pão na minha casa.

Tem uma vela acessa na cozinha, ao lado da imagem dele. Tem festa no Pari, na igreja onde meu avô ia, de vez em quando, levar dinheiro para o pão dos pobres. Hoje tem muita gente querendo casar mas, na verdade, Antônio cuida das coisas perdidas.

Quando você perder algo, acenda uma vela para ele. Minha mãe fez isso, funcionou, e desde então ela faz sua trezena (do dia primeiro ao dia 13 de junho). Está certo que menos de um ano depois ela casou - mas isso a gente corta porque é uma parte da história que ela não gosta muito.
Fica minha homenagem a Santo Antônio, meu segundo santo preferido! Mas esse Hermes de batina também tem um papel muito importante na minha mitologia pessoal.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Politeísmo

Vira e mexe surge esse lance de politeísmo. Apareceu de novo lá na Bruxaria Italiana e, apesar de ter dado uma resposta meio curta e grossa, fiquei pensando nisso depois.

Acho engraçado a necessidade que temos de ter um rótulo e a dificuldade que alguns de nós possuem em deixar de lado o rótulo de monoteísta. Eu mesma tive uma crise de consciência lá pelos meus 16 ou 17 anos. Foi nessa época que me dei conta de que estava começando a acreditar em várias divindades distintas, independentes, que não eram parte de uma mesma consciência onisciente e onipresente. Hoje isso é muito mais maduro e arraigado em mim. Ainda acho que é porque aprendemos a vida toda que politeísmo é coisa velha, de povos ultrapassados e mortos. Uma baita mentira.

A meu ver, existem muitos deuses. No panteão que eu cultuo, o greco-romano, existem inúmeras divindades, muitas delas quase desconhecidas da massa pagã que quer ser filho de um deus bonitinho. Tétis, Urano, Oceanus, Anfitrite, Íris, Leto, Métis, Têmis, Pan, Rhea, Hades, Hefesto... conheço filhos de algumas dessas divindades e sempre me pergunto: há tantos deuses, todos tão lindos...

Para mim esses deuses são a própria natureza, que é tão grande, suntuosa e vasta que apenas uma consciência divina não daria conta de cuidar de tudo isso. Ela ainda engloba elementos tão diversos quanto o céu da terra e a água do fogo. Como tudo saiu de um mesmo deus?

Creio que há deuses que criaram e sustentam o céu, outros que criaram e sustentam a terra, outros que criaram e dão vida à água, outros ao fogo e por aí vai. Entendo que todos tenham a essência do Caos, a grande divindade primordial que gerou Gaia e Urano, mas ainda assim, o Caos não é essa inteligência onipresente. É o grande ancestral, mas não a única natureza criadora.

Não acho que todas as deusas são parte de uma Grande Deusa Mãe e que todos os deuses são parte de um Grande Deus. Para mim cada deus é uma energia, uma inteligência, um pedacinho da natureza personificado ou não pela nossa mente. Mas que vive, pulsa e age.
E cada pedacinho desses coloca seus filhos sobre o corpo de Gaia.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Angitia - deusa das serpentes

Já falei, meio sem querer, sobre essa deusa aqui no blog. Mas na época eu não sabia que ela existia, nem de onde ela vinha. Então, para complementar o texto "San Domenico", deixo uma tradução que eu queria fazer faz tempo sobre Angitia.

A tradução é livre e foi feita a partir de mais um ótimo trabalho da Thalia Took no Obscuro Godess On Line Directory. Para ler o original, clique aqui.

Angitia

Angitia (nome latino da deusa Anagtia) é uma divindade Osci das cobras e da cura, especialmente reverenciada pelos Marsi, uma tribo guerreira que viveu do leste de Roma até os Montes Apeninos (algumas vezes chamados de Colinas dos Marsi) e que falava o dialeto Sabellico*. Ela era famosa por sua habilidade de curar aqueles que foram envenenados, especialmente as pessoas mordidas por cobras. Existia, ainda, a lenda de que esta deusa possuía o poder de matar serpentes através de encantamentos. Os Marsi também possuíam a reputação de curandeiros, magos e encantadores de cobras. De fato, neste tempo, os Serpari, caçadores de serpentes que viviam naquela reigão, eram tidos em alta conta. Em Roma, durante o primeiro século da Era Cristã, as atividades dos Marsi como curandeiros e adivinhos, assim como seu conhecimento da terra, foram consideradas como bruxaria.

Angitia tinha o conhecimento das ervas que curavam, e era honrada em um bosque, chamado de Silva Angitia ou Lucus Angitiae, e em um templo (com um tesouro), ambos localizados na margem sudoeste do Lago Fucinus. Esse lago era largo (mais de 30 milhas de circunferência – cerca de 48 km**), que não possuía nenhuma passagem e que costumava inundar as cidades próximas depois das chuvas da primavera, o que pode ser a razão de ter sido drenado no século XIX. Nesta região também existe a história de Umbro, que foi um sacerdote e vidente lendário dos Marsi. Assim como Angitia, era um curandeiro e um encantador de serpentes; de acordo com a Eneida, o lago Fucinus encheu quando ele foi morto em uma batalha.

Acredita-se que o nome Angitia deriva da palavra angere, que significa “doença” ou “desgraça”, se referindo a sua habilidade de matar cobras, os anguis, “cobra” ou “serpente”. Algumas inscrições mencionam Angitia no plural, como um grupo, as Angitiae (similar a Sulis e as Sulivae) e, em uma inscrição, ela é mencionada como Angerona, deusa do silêncio e do Solstício de Inverno. De acordo com Servius, quem nomeou Angitia foi a bruxa Medea, que voou até a Itália depois que sua a conspiração para envenenar Teseu foi descoberta. Medea é associada com feitiçaria e serpentes ou dragões, por isso ela é associada com a deusa da magia e das cobras dos Marsi.

A atual região de Abruzzo, na Itália, terra natal dos Marsi, ainda é associada com cobras. Lá é celebrada a Festa dos Serpari. Esta celebração, primeiramente mencionada na Idade Média (mas muito mais antiga), é comemorada na vila de Cocullo (cuja população é de 316 habitantes) na primeira quinta-feira de maio. Os Serpari são uma fraternidade hereditária de encantadores de serpente, responsáveis por conduzir o festival.

Em algum momento próximo do primeiro dia da primavera, os Serpari capturam as cobras (a maioria delas de uma espécie calma e não venenosa), e a trazem para a vila, onde suas presas são removidas. Eles a prendem em caixas de madeira ou terracota e as tratam bem até o festival. No dia da festa, os peregrinos se encontram na igreja de San Domenico. Acredita-se que, assim como Angitia, o santo tem poderes de cura, especialmente em se tratando de mordidas de cobras e de cães raivosos e de dores de dentes. Depois da missa, a estátua do santo é carregada em procissão, e coberta com cobras vivas. A procissão é seguida pelos Serpari e por outros fiéis, que também seguem cobertos de serpentes. Em uma tradição mais antiga, as serpentes são mortas e comidas em um banquete, mas hoje elas foram substituídas pelo pão em formato de cobra – alguns representando cobras de duas cabeças. Nos dias de hoje, elas não são mortas, mas soltas de volta no bosque quando o festival termina. A propósito, os dentes das cobras continuam crescendo e, em média uma semana depois, dependendo da espécie, suas presas voltam ao normal.

Angitia é representada nesta figura com várias cobras rastejantes, na frente do Arum dracunculus, descrito pos Plínio como sendo uma cura para mordidas de cobra, com as Colinas dos Marsi ao fundo. O desenho foi feito com lápis aquarela.

Nomes alternativos: Angizia, Anagtua, Anagtia Diiva, Anguitia, Anguitina, Angitia; Ancet, uma deusa da cura dos Paeligini (outra tribo da mesma região**) que é provavelmente a mesma divindade com um nome traduzido para o dialeto deste povo. É quase certo que a Bona Dea romana é a mesma deusa, e seu festival também era celebrado nos primeiros dias de maio, assim como o de São Domenico.

Angitia também é associada com a feiticeira grega Circe.

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*Sabellan, no original em inglês. Não encontrei o nome correspondente em português.

** Nota de tradução.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Meditação de Ceres

Ceres é a Deusa romana da colheita. Seu culto foi sincretizado com o da grega Deméter e, depois de um tempo, ambas passaram a ser a mesma divindade. Ela é a deusa do trigo, da colheita, do trabalho na terra. E, acima de tudo, ela é a deusa do alimento. Ceres ensinou os homens a plantar e a fazer o pão.

Esta meditação, proposta pela artista plástica Thalia Took em seus trabalho com Ceres, nos fala exatamente sobre isso: qual seu tempo de colher? Quem ou o quê você vai alimentar com o trigo colhido?

"Fazer o pão é um processo alquímico; o trigo é colhido do solo, então é misturado com os ingredientes certos nas medidas apropriadas, amassado, deixado sozinho por algum tempo, e só então vai ser assado - com uma temperatura apropriada. Esta meditação questiona: o que na sua vida precisa ser cortado e o que você pode fazer com isso?

Imagine que você está em um campo repleto de trigo dourado, que balançam com a brisa do verão. O vale em que ele cresce tem um nome: qual é? Isso te mostrará em que parte da sua vida ele está localizado.

Você anda pelo campo até encontrar um único trigo que está pronto para ser cortado. Você o faz, e agradece por ter feito parte de sua vida. Como ele se chama? O que você fará dele? Você fará pão, ou plantará algo no lugar? Quem você vai alimentar com ele?"