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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Os espíritos da cidade

Eu ia escrever sobre isso no Depois da Dança, que o blog da minha prática religiosa. Mas por muitas razões, embora eu ache que ainda deva escrever lá sobre isso, acho que é um ponto interessante para explorar aqui.

A própria natureza da palavra neopagão faz com que as pessoas associem a bruxaria e os caminhos ligados ao politeísmo com o campo e a natureza. E eu percebo que muita gente acaba renegando a possibilidade de que a cidade tem sua própria magia.

Poucos dias atrás, estávamos em Paranapiacaba para a 8ª Convenção de Bruxas e Magos. Um lugar plural e múltiplo onde se encontra de tudo e que eu gosto muito de ir. Mais do que só as palestras, círculos e workshops, existe a vila. A vila pulsa com uma alma muito própria. A história de Paranapiacaba, sua insistência em não se deixar morrer, as paixões que a vila inspira, não me permitem esquecer que ela tem uma alma muito forte. Embora esteja no meio da serra, existe uma urbanidade intensa ali, uma pulsação da visão que se tinha de como deveria ser uma cidade.

Existe um conceito romano que é o Genius Loci. O espírito do lugar. Um deus local que está ligado a um lugar, protegendo e zelando por ele. Tanto para gregos como para romanos (assim como para muitas religiosidades orientais), todo lugar tem um espírito. E como lidamos com esse espírito?

No antigo culto romano, havia oferendas e espaço nos altares para os Genii. E no nosso ofício de bruxaria, se queremos estar em paz com o nosso lugar, é bom ter algum carinho para esses gênios. Pense bem: por mais que sua cidade não seja exatamente aquilo que você gostaria, ela tem uma identidade e te provê pelo menos um teto. Sua casa tem uma atmosfera própria e com o tempo, você consegue reconhecer um pouco da identidade dela.

Se ficarmos só pensando em como é boa a vida no campo (uma ideia que surgiu quando um imperador romano pagou um poeta para escrever sobre isso para que o êxodo rural diminuisse, aliás), muitas vezes acabamos desrespeitando o Genius Loci da nossa cidade, que está lá, fazendo das tripas coração para que essa coisa toda não desmorone. Diferentes dos Lare, que estão ligados às famílias e as pessoas, estes são espíritos ligados aos locais.

Conheça um pouco da história da sua cidade, do seu bairro. Observe a arquitetura, as praças ou parques. As estátuas que as vezes se escondem atropeladas pela urbanização. As vezes, muita coisa que pedimos para s deuses são pequenas coisas em que essas deidades locais poderiam ter uma presença muito mais marcante, por serem as vezes parte envolvida no assunto. Está precisando proteger a porta da sua casa? O Genius Loci dela com certeza está interessado que essa proteção dê certo, porque não convida-lo gentilmente a te ajudar?

Quando olhamos o lugar onde vivemos e trabalhamos como algo vivo, nosso ofício de bruxas ganha em intensidade.

imagem: Genius Loci, Charles Mills Gayley, The Classic Myths in English Literature and in Art (Boston: Ginn and Company, 1893)

domingo, 25 de julho de 2010

Ísis e Deméter

Ísis e Hórus
Terminei a pouco a leitura de um artigo chamado "Isis and Demeter: Symbols of Divine Moterhood" (Ísis e Deméter: Símbolos de Maternidade Divina). Esse é um tema que me interessa bastante, tendo em vista que sou devota de Deméter e que a relação de sua figura com as imagens de outras deusas mães é sempre uma discussão bem vinda.

O que gostei no trabalho foi a iniciativa do autor de contradizer teorias anteriores que sustentam a semelhança entre as duas deusas e a hipótese de que os Mistérios de Eleusis (cultos secretos em honra à Deméter e à Perséfone, relacionados com imortalidade e renascimento) seriam simples adaptações dos mistérios de Ísis.

O autor, um acadêmico chamado Vincent Arieh Tobin, do American Research Center in Egypt (Centro de Pesquisa Americano no Egito), sustenta que as similaridades entre Ísis e Deméter são menores do que suas diferenças. Para ele, o ponto central da questão é que Ísis é uma deusa muito mais relacionada a questões políticas do Egito, como a posse do trono e a validação do poder do Faraó, do que Deméter. A deusa grega tem uma relação mais intensa com a natureza em si do que com a política, e parece ter sido menos influenciada por sistemas religiosos patriarcais do que Ísis teria sido. Além disso, ele defende que diversas divindades egípcias teriam relações com símbolos de maternidade - Nephtys, Hathor, Nut - enquanto que, dentro do pensamento mítico grego, Deméter é a deusa mãe por excelência.

O autor colocar que os gregos relacionaram ambas por seus mitos girarem em torno do tema da busca por um ente querido perdido e por serem "mães sozinhas" (single parent, no original). Mesmo aí, temos diferenças entre ambas. Ísis busca o corpo do marido morto, enquanto Deméter busca a filha viva; Ísis é a imagem da esposa devotada à memória e ao legado do marido, enquanto Deméter mesmo tendo tomado consortes, não se casa. Essa última referência, segundo Tobin, pode mostrar uma relação da deusa helênica com divindades ctônicas femininas da pré-história, que não tinham relação direta com nenhum consorte.

Deméter
Por fim, o pesquisador defende ainda que os mistérios de Ísis não são um atributo original dessa deusa, tendo sido aplicados a ela por gregos e romanos em períodos posteriores ao apogeu do Egito, sendo contemporâneos aos Mistérios de Eleusis. Logo, não seria possível que houvesse uma adaptação, nem que Deméter fosse um derivado direto, porém modifica, de Ísis. Ele afirma ainda, de passagem, que os cultos eleusinos derivam de mistérios Minóicos (cretenses), não egípcios.

Eu discordo de alguns pontos colocados pelo autor, como por exemplo de que Ísis é uma divindade mais complexa do que Deméter. Acho que ambas são complexas em seus próprios escopos. Mas em geral acredito que é um trabalho muito bom, que vale a pena ser lido. O único problema é que ele está em inglês e não existe tradução do material.

O PDF com o artigo pode ser baixado neste link.

Se alguém conhecer o autor e tiver mais informações dele (como biografia, áreas de interessa, universidade em que atua etc) eu agradeço, porque até agora não consegui encontrar muita coisa.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Dia de Leitura 2

Mais uma leitura, para vocês se divertirem no fim de semana.


Dessa vez é um artigo da historiadora Maria Regina Cândido chamado "A Magia na Grécia Antiga". Foi originalmente publicado na revista Leituras da História. O arquivo em PDF pode ser lido clicando aqui.

Um trecho de amostra grátis:

"(...) Mesmo com todo esforço civilizatório, a Pólis não poderia interferir em todos os campos da vida
do cidadão. Em conflitos amorosos, por exemplo, o Estado se vê de mãos atadas, pois não
pode punir ninguém sem uma acusação formal. A situação das mulheres é emblemática já que a feitiçaria muitas vezes era um dos únicos meios de se fazer temida e até respeitada. Ou seja:
a magia era a tentativa dos desvalidos (mas não só) de fazerem valer sua vontade por meios
subreptícios. (...)"

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Apollo - um Deus de mts faces

Seguindo a ideia da Inês, que começou com os postings de Deméter, sigo com alguns textos sobre Apollo, seu culto e seus muitos jeitos de ser. Esse é o posting 1, para pensar nas andanças do Deus da Luz do Sol e um pensamento de como sua flecha, de origem oriental, turca, muito provavelmente, atinge ao longe... até as terras celtas (provavelmente onde ficavam os hiperbóreos).

Um bom lugar para começar uma pesquisa sobre Ele é pelo Theoi Project e de lá, retirei algumas dessas primeiras informações - e algumas da Wikipedia.

A primeira coisa que eu pensei é como Apollo é um deus de muitas faces e assim, de um culto muito amplo mesmo. Isso quer dizer que além de muitos títulos e formas de culto, Apollo assumiu inclusive muitos nomes em diferentes locais, diferentes nações, da Itália e da França celta e em parte da Austria.

"Apollo, como outras deidades gregas, tinha um número de epípetos que se referiam a ele, refletindo uma variedade de papéis, trabalhos e aspectos dados ao Deus. Porém, enquanto Apollo tem tantos nomes na mitologia grega, poucos aparecem na literatura latina (romana), a qual encontramos PHOEBUS (o brilhante), que também era usado pelos gregos em sua face de Deus da Luz.
Em seu papel de curador, seus nomes incluiam Akesios e Iatros, significando "o que cura". Ele também era chamado Alexikakos "o que restringe o mal" e Apotropaeus "o que manda o mal embora" e também era referido pelos romanos como Averruncus "o desviador do mal". Como Deus das Pragas e defensor contra ratos, Apollo era conhecido como Smintheus "o que caça ratos" e Parnopius "o grilo".

Os romanos também o chamavam Apollo Culicarius "o que afasta a doença". Em seu aspecto de cura, os romanos o chamavam de Medicus "o médico" e tinham um templo a ele em Roma, provavelmente perto do templo de Bellona.

Como Deus da Arquearia, Apollo era conhecido como Aphetoros "deus do arco" e Argurotoxos "com o arco de prata". Os romanos se referiam a ele como Articenens "o que carrega o arco".

Como um Deus Pastoral Apollo era conhecido como Nomios "o que anda".
Apollo também era conhecido como Archegetes "o diretor da fundação", o que assistia as colônias. Era conhecido como Klarios "lote de terra", por sua supervisão sobre cidades e colônias.

Outros nomes de Apollo era Delphinios significando "do útero" em sua associação com Delfos. Em Delfos, ele também era conhecido como Pythios. Uma aitiologia nos hinos homéricos ligam esse epíteto com os golfinhos. Kynthios era outro epípeto, o ligando a seu nascimento no Monte Cynthus. Também era conhecido como Lyceios ou Lykegenes "dos lobos" e "da Lícia", onde alguns postulam que seu culto teve início.

Especialmente como Deus da Profecia, Apollo era conhecido como Loxias "o obscuro". Também era conhecido como Coelispex "o que vigia os céus" pelos romanos.

Apollo recebeu o epípeto de Musagetes como líder das Musas e Nymphegetes como líder das ninfas.

Acesius era o sobrenome de Apollo sob o qual era cultuado em Elis, onde um templo na ágora fora eregido. Esse sobrenome, que tem o mesmo significado de "aquele que evita o mal."

Entre os celtas:
"Apollo era adorado ao longo de todo o Império Romano. Nas terras celtas, era tradicionalmente visto como um deus solar e de cura, assim ganhava qualidade de outros deuses celtas com as mesmas características.
Apollo Atepomarus "o grande cavaleiro" ou "o que possui um grande cavalo" era cultuado em Mauvrieres. No mundo celta, o cavalo era ligado ao sol.
Apollo Belenus "o brilhante". Esse epípeto foi dado a Apollo em partes da Gália, Norte da Itália e Noricum (na moderna Austria). Assim, era um deus solar e de cura.
Apollo Cunomaglus "senhor dos cães". Um título dado a Apollo num templo em Wiltshire, provavelmente como um deus da cura.
Apollo Grannus. Grannus era um deus de fontes de cura, posteriormente igualado a Apollo.
Apollo Moritasgus "massas de água do mar". Um epípeto de Apollo em Alésia, onde era cultuado como Deus da Cura, provavelmente como deus dos médicos.
Apollo Vindonnus "o da luz clara". Apollo Vindonnus tinha um templo em Essarois, perto de Chatillon-sur-Seine na Borgonha. Ele era um deus de cura, especialmente para os olhos.
Apollo Virotutis "o benfeitos da humanidade". Apollo Virotutis era cultuado em locais como Haute-Savoire e Maine-et-Loire."

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Oferendas para Deméter

Como eu sou muito boazinha (ô mentira deslavada... rs), neste post da série sobre culto à Deméter, resolvi colocar mastigadinho para vocês algumas dicas de oferendas para a Deusa.

Para ler os outros posts da série, cliquem aqui e aqui.

- Comida: carne de porco, trigo, comidas com grãos, pão;
- Bebida: cerveja, tanto de cevada quanto de trigo (tipo Weiss);
- Velas: verde, marrom, azul escura;
- Incenso: ópio, olíbano;
- Ervas: melissa;
- Flores: papoula;

Acho que textos e poemas são também uma boa oferenda. Se você não quiser criar nenhum, sugiro a leitura do Hino Homérico à Deméter (ou de um trecho, já que ele é gigante) e do Hino Órfico. Alguns autores que recontam os mitos também são legais, por exemplo, O Carlos Calasso e seu "As Núpcias de Cadmo e Harmonia".

Essas oferendas foram ideias tiradas de várias fontes, como site do Reconstrucionismo Helênico no Brasil, o Theoi Project, o livro "Archetypal Image of Mother And Daughter" (Karl Kereny) e de conversas com outros pagãos por aí.

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Ainda está rolando as inscrições para o sorteio de um exemplar do livro "Aradia". Para saber como se escrever, leia este post.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A relação de Deméter com a comida

Segundo post da série sobre culto a Deméter. Para conferir o primeiro, clique aqui.

Fazer pão sempre foi parte das minhas oferendas e do meu culto para Deméter. Primeiro, porque Ela é a Deusa que ensina a humanidade a isso. Segundo, porque seu principal domínio é o alimento. Além de tudo o que eu falei na primeira parte desta série, Deméter é essencialmente a deusa da comida.

Na Grécia Ela é - ou era- a Senhora dos Trigais. Ela é a mãe do trigo, a responsável pelo seu crescimento. Seu cabelo é retratado como dourado, por essa ser a cor do trigo maduro. E se pensarmos em uma sociedade na qual uma das bases da alimentação era o trigo, faz muito sentido ele ser identificado com uma divindade maternal e provedora.

Aqui no Brasil nós temos uma produção de trigo pequena, se comparada a outros países, concentrada na Região Sul. O clima frio de lá é o único no qual a planta se adapta por aqui. O trigo precisa de um tempo não muito quente, nem úmido demais, e por isso não se desenvolve em outras regiões do país. Então, em uma terra como a nossa, não acho errado cultuá-la como a senhora de todos os grãos, não só do trigo. Principalmente porque a base da nossa alimentação, o arroz e o feijão, são grãos.

Minhas oferendas para ela já comportaram soja, feijão, arroz e milho. E, sempre que possível, carne de porco, já que esse era seu animal sagrado. Segundo Karl Kereny em seu livro "Archetipical Images of Mother and Daughter", sobre os Mistérios de Eleusis, a purificação dos iniciandos era feita com sangue de porco e, depois de morto, o animal era assado e todos compartilhavam da carne. Tem relatos que contam que o templo de Deméter cheirava a carne assada.

Por isso eu sempre prezo pelo alimento nas oferendas de Deméter. E sempre que eu faço pão em seu nome, eu dou para as pessoas comerem. Se eu abro uma cerveja para Ela, separo um copo (que depois eu despejo na terra) para o altar, e o resto eu tomo. Evito ao máximo o desperdício nas oferendas de Deméter. Não acho que a deusa gostaria disso.

Para aqueles que estão começando uma aproximação com essa deusa, eu indico começar pela comida. Agradecê-la na hora das refeições é um primeiro passo. Lembrar Dela quando for cozinhar é outro. Oferecer um gole da sua cerveja para a deusa - pode ser a de cevada mesmo - também é uma boa forma de começar.

O que eu coloquei aqui é apenas um começo. Para se aprofundar no assunto, eu indico o capítulo sobre as deusas mães do livro "O Poder do Mito", de Joseph Campbell.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Quem é Deméter?

Primeiro post da série. Espero que gostem. Só que está um pouco grande...

Quando Deméter entrou na minha vida, em 2007, eu não sabia direito quem Ela era e não entendi, a princípio, porque uma deusas dessas ia estar comigo. Assim como a maioria das pessoas, eu atribuía à Deusa apenas atributos maternais que não tinham lugar na minha vida aos 21 anos. Mas aos poucos eu fui conhecendo a divindade, seus diversos atributos, suas formas de culto, suas oferendas... e assim eu entendi que, realmente, temos muito em comum.

Apesar de sempre lembrarmos do mito do rapto de Kore, um episódio que reforça o caráter materno de Deméter, essa não é sua única característica. A chave para entende-La é, na verdade, o pensamento de que Ela é uma deusa da terra e a patrona da agricultura. Por conta disso, ganha atributos de mãe: porque Ela é a terra fértil e cultivada que fornece o alimento dos humanos. Por isso seu nome significa, literalmente, Deusa-Mãe - das raízes Da, Deo ou Do, Deusa, e do sufixo Meter ou Mater, Mãe.

Foi Deméter quem ensinou Triptolemos a cultivar o trigo e a fazer o pão, e foi em seu carro puxado por serpentes que ele andou pelo mundo repassando seu conhecimento às pessoas pelo mundo. Por isso, é graças à deusa e sua benevolência que os mortais deixam de ser nômades e, assim, começam a constituir cidades e sociedades - já que, com a agricultura, eles não precisavam ficar se mudando toda hora em busca de comida. Por isso, Ela também é considerada uma deusa civilizatória, mesmo tendo uma intrínseca relação com a vida campestre por seus atributos agrícolas.

Atributos, esses, que ela não perde mesmo nos cultos urbanos, por ser uma deusa da terra. Com isso, podemos ter uma outra interpretação do mito do rapto de sua filha. Ele nos mostra claramente a transformação da plantação durante os vários períodos do ano: primeiro ela é a semente escondida na terra, que transforma-se em broto, amadurece e é colhida. Essa é a alegoria chave já que Kore, retorna na Primavera como o broto do trigo e vai para o Hades, no final do Verão, como a planta que é colhida e, portanto, morta. Mas como a agricultura - e a vida - consiste em ciclos, fica sua semente, que permite que ela seja plantada novamente e que tudo volte. Por isso Kore-Perséfone vai e volta, todos os anos, da Mãe para o marido, do marido para a Mãe.

Além dos seus ciclos com Kore-Perséfone, Deméter tem um papel importante como uma das Crônidas, os seis filhos de Cronos e Rhea. Ela é uma das mais velhas, nascendo logo após Héstia e antes de Hera. Para mim, as irmãs representam os três aspectos essenciais da constituição do genos (família) na maioria das pólis da Grécia: Ancestralidade (Héstia), Maternidade (Deméter) e Casamento (Hera). Porém, por ser uma deusa solteira, que toma consortes mas não se casa com eles, ela mantém uma certa independência que Hera não tem, e quem nem mesmo Héstia, que abdica do casamento e do sexo, possui.

Outra característica marcante de Deméter nesse aspecto é sua soberania. Ela é uma mãe de muitos filhos, inclusive de descendentes de dois reis entre os deuses, Zeus e Posídon. Além disso existe o romance famoso com o agricultor Iasion (que alguns autores dizem ser, na verdade, o herói Jasão), que gerou Pluto, o deus da riqueza. Mas, em nenhum momento, existe a citação ou a intenção de casamento entre Ela e seus amantes. Deméter é o tipo de mãe que entende os filhos como dela, não dos pais. Ela gera, alimenta, dá a luz e cria sem a interferência masculina - só na concepção. Há, ainda, um traço de características de deusas da soberania da terra, porque ela pode ser amante, pode gerar filhos dos reis, pode dar sua filha em casamento a outro rei, mas ela não se submete totalmente a nenhuma deles.

Portanto, Deméter é uma divindade da terra, da fertilidade, patrona da agricultura. É, ainda, fortemente associada à maternidade e à soberania da terra, que mesmo explorada pelo agricultor não é completamente domada. E é uma deusa de muitos epítetos e muitos domínios.

O culto a Deméter era essencial em diversas cidades gregas (como Atenas, por exemplo) e depois foi instituído em roma, quando Ceres foi associada à deusa grega. Os ritos públicos garantiam a sobrevivência do estado e garantiam que não haveria uma grande estiagem ou uma grande fome. Alguns rito, apenas para mulheres, eram voltados para os atributos de fertilidade e maternidade. E haviam, ainda, os ritos de mistérios - que são um post à parte nessa série.

Eu já fui questionada sobre o meu culto, sobre o por quê ser devota de uma divindade agrícola morando numa cidade como São Paulo. Apesar de não vermos, nós dependemos do que vem do campo. Mesmo que a gente compre cereais integrais em sacos plásticos no mercado, eles vieram de algum lugar que tinha terra e foram plantados em algum momento. Além disso, se pensarmos em Deméter como a deusa que possibilita a criação das civilizações sedentárias, nós não estamos errados em cultuá-las nas nossas cidades.

Vejo em Deméter muitos atributos que pagãos buscam na Grande Mãe cultuada pela Wicca, e até atributos de outras deusas da terra, dos panteões gregos e romanos e até de outras culturas, como a celta e a africana. Não estou dizendo que todos devem cultuá-la, obviamente, mas que ter essa visão nos ajuda a compreender os ciclos da terra e a necessidade de honrarmos uma deusa mãe, independente de qual for.

Fiz uma lista de mitos interessantes de Deméter. Coloquei os links do Theoi Project que, apesar de ser em inglês, é a fonte mais confiável na internet.

sábado, 27 de junho de 2009

dica oracular...


Quando o inverno chega, eu me arrisco mais nas coisas. Parece que é meu tempo de olhar mais afiado. E é quando eu tomo coragem e trabalho com práticas oraculares (e acho que a coisa mais curiosa sobre ser mais ou menos de maneira pública uma "bruxa" é que as pessoas te procuram buscando por isso com frequência). E o oráculo disse uma coisa para alguém que me deixou pensativa. Ele disse "vá combater sua barreira linguística - aprenda outra língua seja qual for."

E faz sentido. O português é uma língua jovem historicamente. E embora tenha um número enorme de falantes, quando se começa a pesquisar na internet sobre assuntos ligados a prática mágica e religião, se percebe que, neste mundo virtual (e algumas vezes no mundo físico também), as informações não chegam em português.

Eu conto com um italiano bem ruim, mas que dá para ler com a eventual ajuda de um dicionário, embora pragueje com sinceridade compreensível, e um inglês meia boca, que lê com perfeição mas escreve feito o Tarzan. E eu percebo o quanto minha percepção de mundo mudou graças a isso. Pude conhecer a stregheria pelo ponto de vista das pessoas nas suas práticas, lendo seus blogs. Consigo ler sites como o Rue's Kitchen. E livros e artigos científicos.

Meu mundo fica mais amplo quanto mais exercito a linguagem.

O mundo está mais próximo. Anos atrás, era preciso a longa espera do correio internacional para conversar com alguém na Europa ou na América do Norte. Agora, fazemos isso em tempo real. A informação se multiplica quando conseguimos entender suas chaves. É uma bobagem - mas quando identifiquei os kanjis que identificavam "download", consegui os paper models mais bonitos do mundo -arte em papel é especialidade no Japão.

A internet deixa as outras línguas muito, muito próximas de nós. E Mercúrio se alegra, morre de rir, eu diria, com essa facilidade. E eu recomendo a todos o que o oráculo disse - aprenda novas línguas.

Todas as que puder. O mesmo inglês que me serve para aprender sobre helenismo e stregheria, me diverte quando descubro que consigo ler romances de Star Wars em inglês (que nunca serão traduzidos). Meu mal italiano me ajuda a entender as anotações hieroglíficas nas costas das fotos de família, na reconstrução do meu passado.

domingo, 12 de abril de 2009

Outras visões de Apollo


Muitos deuses gregos e romanos tem seus correspondentes etruscos. Lendo sobre isso, não consigo chegar à conclusão de que eles realmente tinham mitologias parecidas, ou se é só uma necessidade de comparar todos os mitos ocidentais com os gregos.

Contestações à parte, eu gosto de ver na mitologia comparada outras visões, às vezes mais primitivas, dos deuses gregos. E nessas eu descobri Apullu, ou Aplu, a "versão etrusca" de Apollo.

Pelo que eu consegui descobrir até agora (e estou me odiando por ser obrigada a procurar informações nos livros do Charles Leland), a grande semelhança entre os deuses é a sua relação com a cura. Assim como Apollo, Apullu era chamado para evitar as pragas, curar doenças e tirar o mal olhado.

Entre os epítetos de Apollo, existe "o que afasta o mal". Em um dos livros sobre Etruscos do Leland - que eu não me lembro o nome -, ele cita um pequeno feitiço rimado para Apullu, com esse intento.

A relação mais próxima dos dois são as pragas e seu poder de trazê-las ou afastá-las. Tanto que outro autor diz que Apullu está mais ligado ao Apollo Smintheus do que aos epítetos solares do deus. Além disso, Aplu era relacionado às variações do tempo e ao trovão, que na Grécia é uma atribuição de Zeus.

Além dos atributos de cura e purificação, Aplu também tinha no louro sua erva sagrada. Algumas de suas imagens o retratam com coroas e ramos da erva. Ele também era frequentemente desenhado ao lado de sua irmã, que tem relação com Ártemis. Porém, o parentesco de ambos não se relaciona com uma equivalente a Leto, pelo menos até onde eu consegui ler.

Junto a isso, descobri outras coisas sobre Apollo em si. Que, por exemplo, havia um deus de cura em Creta, cujo o nome era algo similar a Paion, registrado na Linear B. Paion é um dos epítetos relacionados a cura do Apollo grego, mas os arqueólogos não creem que são a mesma divindade. Na opinião da corrente histórica mais proeminente, o culto a Apollo e a Leto veio da região da Turquia e parou em Creta, onde os gregos assimilaram os dois, junto com outras divindades - como Zeus, Posseidon, etc - e levaram para o continente.

Há, ainda, controvérsias sobre o culto de Apollo Délico, na ilha de Delos onde, segundo o mito, Leto teria dado a luz aos gêmeos. Há fortes evidências de um antigo culto a deusa-mãe e à Ártemis, mas o culto a divindade masculina na ilha parece ser discreto e bem posterior. Isso parece ser mais uma evidência de que Apollo é um deus originário de outra região.

Mais uma relação oriental são com os deus solares da Anatólia e da Babilônia. Um desses deuses, coincidentemente chamado de Aplu Enlil, também tem relação com o Sol e com as pragas. Há, ainda, Shamash, outro deus solar.

E assim vamos cavando e vendo de onde pode ter saído o culto de uma das divindades com um dos cultos mais disseminados entre os gregos - e entre os neopagãos também.

A imagem é uma cabeça
de divindade etrusca, do Museu do Prado,
possivelmente Aplu.

domingo, 5 de abril de 2009

Palestra da Tarde Esotérica de Abril - Visionários


Visionários. Tá ai uma discussão que foi muito interessante...

Eu coloquei no Twitter - aliás, quem quiser me seguir, clique aqui! - uma pergunta: O que é um visionário? E muitas respostas interessantes chegaram. E acho que a minha favorita foi a que o visionário é como Apollo, o arqueiro que o olha o ponto além do ponto para poder acertá-lo em sua realidade.

E eu penso bem isso mesmo. O visionário é aquele que consegue enxergar uma realidade, numa análise e fazer que isso se manifeste no tempo de hoje. Como sempre ele pode não ser o mais bem interpretado... geralmente, até, incompreendido.

A questão é que o meu visionário foi a profa. dra. Sabina Magliocco. Professora universitária, mulher, amante de gatos, fazedora de testes do Facebook. Uma pessoa que é como eu e vc, mas que tem umas teorias e estudos, que eu não tinha até uns 2 anos atrás e que mudou mt meu jeito de pensar algumas coisas e que me mostrou que o que eu pensava e entendia a respeito de algumas questões da stregoneria por ai não eram mera implicância.

A profa. é wiccana. E doutora em Antropologia. Assim, ela coloca toda nossa perspectiva teórica e de estudo de campo, avalisando o que acreditamos num campo teórico e científico. E eu acho isso bárbaro. Porque sai do campo do achismo para se confirmar em fatos históricos, estudos de campo e mesmo vivências de outros que não nosso grupo seleto.

Assim, eu convido a todos para lerem seu texto Magia Vernacular X Stregheria, que eu traduzi... e visitar o link que está ai do lado, no blog, na parte MAIS SOBRE STREGHERIA, o Stregheria and Vernacular Magic, pois é parte de um fórum, em inglês, no qual a professora interage com os membros do fórum e fala mais sobre tradição e um pouquinho sobre Aradia. Vale a pena.

E a todos que foram à palestra, muito obrigada =)

A imagem é a professora sendo uma pessoa, como eu e vc... Ah, sim, vc pode encontrá-la no Facebook =)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Pharmakeia, Deusa Bruxa


Pharmakeia, do grego, a que conhece ervas. Também palavra para bruxa ou feiticeira. Sim, desde a Grécia antiga, aquela que conhece ervas, seus segredos, remédios, venenos e transformações são das chamadas "bruxas". As mulheres sábias, as que tem um olhar mais apurado para o local que habitam, que vivem-junto.

Algumas deidades têm esse nome, pharmakeia. E, geralmente, quando pensamos nisso imediatamente, vamos para Diana, a Reina del'e streghe ou mesmo, Hekat, a Trívia. Seus atributos de senhoras da magia, de trazedoras das mudanças, de conhecedoras dos caminhos e do mundo selvagem, além de uma ampla iconografia e associações com a Lua, fazem com que Diana e a Trívia sejam "top of mind" quando pensamos nas pharmakeia.

Mas, outras Deusas são assim... Circe é uma. A Deusa dos Cachos Claros. Filha de Hélios e Perseis. Circe se faz muito presente na vida de Odisseus, que chega à ilha de Circe e tem sua tripulação transformada em porcos; transformação que não se dá por um passe de mágicka, mas sim, por drogas, por poções. Circe, a que ajuda Medea a se casar com Jasão e é visitada na Itália. Na Velha Bota ainda, Circe é conhecida como mãe do deus Faunus, por Poseidon.

Outra, é a irmã de Circe, Pasifae. A que Brilha em Tudo. A esposa do rei Minos, mãe do minotauro, Asterion. Pasifae também mãe de Ariadne, a senhora do labirinto, e de Fedra. Pasifae conhecedora das ervas, chegou a amaldiçoar Minos por suas amantes fora do casamento, fazendo que ele ejaculasse escorpiões quando se deitasse com outra que não ela.

O que eu acho muito interessante nessa coisa toda é que, Pasifae é a lua cretense... Circe é uma senhora de uma ilha que trabalha com ervas e drogas e se coloca na posição de conselheira ou de interventora.

Sim, as pharmakeia são como as streghe. Talvez sejamos nós como representações físicas dessas Senhoras Antigas, das Senhoras da Sabedoria da Natureza.


terça-feira, 16 de setembro de 2008

Diana - um estudo

No começo do meu caminho, ouvia de outros praticantes que toda strega cultua Diana, e que isso é feito em grupos, geralmente familiares, que se baseiam em tradições super antigas. Há, inclusive, quem diga que esses grupos constituem um tipo de irmandade secreta, uma Sociedade de Diana, que se manteve através dos séculos, mesmo com a Inquisição e com todas as invasões, guerras e religiões que chegaram na Europa.

Mas aí, algumas coisas ocorreram na minha vida. Eu descobri que, na verdade, a deusa que guia meu caminho nesta vida é Deméter, uma divindade da terra profundamente ligada aos ciclos do Sol. E eu entendi porque, por mais que eu tentasse e cultuasse Diana, não me sentia ligada à sua energia.

Com esse processo todo de descoberta de Deméter em minha vida, passei a pesquisar mais sobre os deuses gregos, de uma maneira bem mais profunda. Juntando isso aos meus estudos da stregoneria e da religiosidade romana, li em algumas fontes - creio que na antropóloga Sabina Magliocco - que a Diana das streghe "modernas" é pouco citada em mitologias antigas. Ela é, na verdade, uma figura que começa a aparecer no folclore mediterrâneo na Idade Média, junto com sua filha, Aradia.

A hipótese mais aceita é que ela, na verdade, uma divindade latina pré-romana identificada com Ártemis por seus atributos de protetora da vida selvagem, das mulheres, dos partos e da caça. Vale ressaltar que, na Grécia, Ártemis não era tão identificada com a Lua e essa associação só ganhou força com os romanos. Seguindo nesse caminho, Diana também tem os atributos de "Bona Dea", denominação um tanto genérica usada pelos romanos para falar das deusas relacionadas à fertilidade da terra e das mulheres (como Ops, Ceres e Cibele).

A questão fundamental está aí: os deuses romanos/latinos assumem características dos gregos, mas há certas diferenças. Marte, por exemplo, é um deus de vegetação e poderio militar em Roma, enquanto na Grécia ele era um deus de carnificina e assassinato. Creio que, com Diana, o processo foi parecido: ela assumiu características da Ártemis grega, mas continuou com atributos de fertilidade que a outra deusa não poussuía, por ser uma das três divindades virginais do Olimpo.

Quando eu fui fazer esta pesquisa, achei que era meu momento de me "reconciliar" com Diana. Tentei entender seu papel nos cultos antigos, recapitulei o que eu sabia, o que eu ouvi de pessoas que a cultuam e somei tudo ao que me lembro dos livros do Charles Leland e do James Frazer - pesquisadores da bruxaria italiana e do culto de Diana, ambos do século XIX. Para mim, a deusa se mostra muito mais similar à Hécate Trívia do que à Ártemis. Ela tem os atributos lunares, férteis e mágicos da Trívia, em especial na sua forma de Mãe. Mas há, também, a liberdade da Donzela. E, porque não, o conhecimento e sabedoria da Anciã. [já havia colocado algo nessa linha no post Trívia e Diana]

Há, ainda, muitas streghe que cultuam Diana. Elas a tem como a rainha da natureza e das bruxas, consorte de Lúcifer/Dianus/Apollo Lucifero, deus da luz e do Sol. Pelos mitos registrados no livro "Aradia - Il Vagello delle streghe" ("Aradia - o evangelho das bruxas", de Charles Lelland), os dois teriam uma filha chamada Aradia, que desceu à terra, como sacerdotisa e strega, e ensinou aos oprimidos - se pensarmos no contexto medieval do mito, mulheres e serviçais - a magia e o culto à Diana. Com isso, eles se libertariam da opressão sofrida. Dizem que esses ensinamentos perduraram entre famílias e grupos, organizados como sociedades secretas, desde a Idade Média até hoje, e que alguns clãs praticantes da stregoneria - dentro de um contexto pagão - conservam esses ensinamentos.

Ela continua sendo identificada com a Lua, com a natureza indomada, com a vida selvagem, os nascimentos, a colheita e a fertilidade das mulheres. E é cultuada nas Luas Cheias.

Dicas de sites:

- Blog de uma strega que cultua Diana: Diana's Muse - http://www.dianasmuse.blogspot.com/
- Site do Raven Grimassi, sacerdote de uma tradição que cultua Diana - http://www.stregheria.com/
Imagens:

1- uma escultura em Baltimore, EUA, do Flickr
http://www.flickr.com/photos/50325108@N00/1365705535/
2 - uma imagem "streghe" de Diana como deusa da fertilidade
http://www.newprophecy.net/Diana_goddess_1.jpg
3 - ilustração de Aradia, filha de Diana e Lúciferhttp://caldeiraodeceridwen.sites.uol.com.br/aradia.jpg

Fiz esse texto para um grupo virtual em que participo, para um estudo de deusas lunares. Achei que tinha há ver com nosso tema aqui e talvez possa gerar algumas trocas interessantes.