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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Agradando aos ancestrais

Eu estava com esse texto engatilhado quando surgiu a proposta do desafio pela Pietra. Então, fica aqui meu texto como mais um ponto de vista dentro do assunto...
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Sábado. Correndo antes de sair para o salão onde estava acontecendo a festa de aniversário do meu filho (tinha ido buscar umas coisinhas esquecidas ara trás). Parei diante do altar dos ancestrais. Desejei tanto que eles estivessem conosco para compartilhar nossa alegria... voltando para o quarto, peguei uma vela colorida e bonita que tinha comprado sem saber bem para o que ia usar, e acendi. Fiz uma breve oração pensando nos ancestrais que não chegaram a conviver com meu pequeno e especialmente com aqueles que conviveram com ele, ainda que de forma breve. Acendi a vela, e sorri.

Em minha memória, se empilham momentos assim. Uma coisa que aprendi sobre honrar e celebrar os ancestrais é que independente de religião, algumas coisas são quase sempre presentes:

* Uma forte sensação de que mesmo mortos, ainda somos parte da mesma família. Nossos ancestrais, nossos mortos, dividem conosco uma história, e são presentes em nossas vidas - como um dia nós seremos na vida de outras gerações.

*Comer é uma atividade que nos lembra quem somos, e por consequência, quem são nossos ancestrais. Festejar ou fazer um mero almoço cotidiano são igualmente momentos em que nossos mortos queridos podem ser lembrados. Comida é a oferta mais comum aos ancestrais, em todo o mundo.

*Contar histórias, olhar fotografias, ouvir nossos velhos e ensinar o que descobrimos aos que se interessarem em ouvir, é tão importante quanto rezas e rituais. De certa forma, isso são rituais.

Meu altar dos ancestrais é o que minha avó chamaria de barafunda. Nele se misturam devoções e lembranças para os ancestrais da família, os espíritos do caminho que trilho, do lugar onde moro, para os lares e outras deidades domésticas. Ao que parece, as medalhinhas de santos católicos e as imagens de Lares romanos parecem conviver bem, e eu tento ser "ecumênica" quando diante daquele altar. Ali, não importa os deuses que eu cultuo ou o deus da minha avó. Ali, as coisas são entre nós, entre os espíritos e eu. É uma conversa de cozinha, de pé do fogo.

Existem sim festivais em que a coisa é entre eu, os deuses e os mortos. Mas ai é outra conversa. Um, porque não se trata de um ancestral específico, e outro, que as vezes pedimos aos deuses por pessoas que são de outras fés, sem ofensa alguma e com todo o respeito por essas pessoas.

Mas no dia a dia, fora desses festivais ou excessões, o meu culto aos ancestrais, minha devoção a eles, se dá com comidinhas oferecidas, um café, uma cantiga relembrada. Uma velinha ou um incenso gostoso, e uma sensação quase infantil de poder pedir colo para a avó. Sempre que tem um evento importante na família, que alguém nasceu, morreu, fez aniversário, se formou, arranjou namorado, casou, parar ali para lembra-los, acender uma vela, ou dividir um cupcake, para que eles façam parte daquele momento.

Sempre, é essa sensação de dizer a eles: "Vocês fazem parte da minha vida, de quem eu sou hoje e eu sou grata por isso."

Quando eu canto A Estrela Dalva pro meu filho ou quando faço mingau de maizena, quando aprendo a me pentear como minha bisa ou converso sobre o passado da minha cidade, eu gosto de deixar uma ofertinha para os ancestrais, os meus, os deste lugar. Porque é bom. Não é uma obrigação. É um prazer de compartilhar com aqueles que vieram antes de nós.




(fotos-museu ferroviário de jundiaí)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A mulher...

A mulher anda pela cidade. Imersa em tecnologia e afazeres, quem olha de fora pode nem perceber o que se passa. Mas quando abre seu armário no trabalho, os deuses e os espíritos, do lugar e os que cuidam dela, estão ali, honrados, e ela deixa uns wafers  em oferta aos espíritos.

Usa a internet para conhecer mais e ler sobre amigos distantes. E olhando os emails, faz um sinal para afastar o mal olhado quando encontra na caixa uma mensagem de alguém tóxico.

A mulher prepara sua comida e ri enquanto ouve uma piada, mas joga sal no fogo para ver a chama azul e alimentar o fogo, mesmo que ele venha de uma boca de gás. E quando o churrasco de família termina, aproveita as brasase joga um punhado de cevada que chiae solta um cheiro bom enquanto queima.

E com a mesma naturalidade de quem discute um lançamento blockbuster do cinema, ela aproveita a distração geral e veste sua corrente de ferro onde um pingente cheio de pimentas e chifres de vidro vermelho faz lembrar sua força, só para ter certeza de que os pensamentos alheios não vão atingi-la. E fala com o mesmo tom acadêmico dos rumos da educação e da história da bruxaria. 

As vezes, a mulher suspeita um sorriso quando escuta pelas costas alguém comentando "ela também é uma bruxa".

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ofício e família

São duas e meia da manhã e eu deveria esta dormindo porque daqui a seis horas estarei saindo para o trabalho.

Ao invés disso, estou desenhando sigilos de proteção e preparando as ferramentas com que alguém que amo estará amanhã fazendo sua própria magia; ela a seu modo também é uma bruxa.

A diferença é que ela, ao contrário de mim e de outras mulheres desta família, decidiu um dia que não queria lidar com essas coisas. Que não se sentia forte, que achava que não era o bastante, que não lhe servia.

Eu não acredito em livre arbítrio, sou helenista caixa de maizena, acho que os deuses mandam na gente. Ela é católica - acredita em livre arbítrio.

Eu não discuto seu livre arbítrio. Mas os sonhos, ela os tem, mesmo fugindo deles. E quando menos espera, lá vem ela, pedindo um sigilo de proteção ou uma reza forte, aconselhando alguém ou fazendo uma limpeza, jogando sal ou espantando mal olhado .

Tenho reparado que nos últimos tempos, ela tem lidado melhor com isso. Com o fato de que não podemos negar que nosso papel na sociedade é espantar coisas, proteger coisas, tecer feitiços e cozinhar intenções. E que não importa se eu invoco Hécate e ela São Miguel Arcanjo, se eu queimo ervas e ela incenso de oração, se ela faz uma figa discreta e eu um mano cornuto na frente do peito, nós trabalhamos bem ajudando uma a outra.

Este ofício independe de religião, e cada vez mais eu creio que também independe de vontade. Parece que alguns não conseguem fugir do que são.

E eu, anoto os símbolos que ela me pediu para procurar, enquanto separamos carvão e sal, e preparo minhas velas, e enquanto ela separa o terço eu faço sortilégios de proteção sobre ela.

Queria que a vida fosse fácil e nada disso necessário. Mas acho bonito, nós duas assim, vestindo jaquetas vermelhas e discutindo formas de afastar juntas um mal que teima em se aproximar da comunidade. Porque é isso que fazemos, não? Nós bruxas que não se dizem bruxas, nós que nos encontramos sob a sombra das árvores fazendo tranças de ervas e olhando a passagem das pessoas ao longe.

Nós cuidamos do nosso vilarejo, para que o leite não talhe e as plantações não sequem.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um pouco sobre Ares

A Ametista - que tem aparecido bastante por aqui ultimamente :) - deixou um comentário no nosso mural perguntando sobre Ares. Nós três aqui do blog mantemos devoção por ele, mas eu resolvi fazer um post contando um pouco da minha experiência.

Ares e Deméter apareceram na minha vida na mesma época. Só que, enquanto o culto a Deméter demorou mais para se estabelecer e é tem uma característica sazonal, exigindo diferentes ritos, oferendas e posturas de acordo com a estação do ano, o de Ares foi mais fluido. Seu culto é relativamente simples, mas exige dedicação e muita disciplina.

Vejam bem, relativamente. Na prática, nenhum culto a nenhum deus é simples, porque mais cedo ou mais tarde eles nos levam para caminhos de auto-conhecimento e de trabalho que podem dar uma certa dor de cabeça.

Mas, voltando a Ares...

Obviamente, ele é um deus da guerra, mas muito diferente de Athena. Ele é tido pelos gregos como "O Sujo de Sangue", o deus que se alegra na batalha e na carnificina. Ares é o deus do furor da batalha e, segundo Homero, ele não vê amigos e inimigos, apenas luta porque gostado sangue e da matança. Para os gregos, ele não possuía os atributos estrategistas e sábios de Athena, porque ele é outro aspecto da guerra.

Ele é um deus de violência, de raiva, de paixão, de proteção, de disciplina e de força. Cultuar Ares é entender que a guerra é necessária para o mundo, e que nós travamos pequenas batalhas todos os dias.

O culto a Ares vai levar o devoto a ter essa compreensão. Mas também vai levar a muitos aprendizados sobre coragem, força e disciplina.

Quem tem um texto muito bom sobre Ele é a Alexandra, do Reconstrucionismo Helênico no Brasil. Pode ser lido na seção de Mitologia do Tribos de Gaia, clicando aqui.

P.S.: recuperei um dos textos perdidos... o outro já era... :(

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Uma estada perto do Mar


Florianópolis, em Santa Catarina, certamente não é chamada de Ilha da Magia a toa... é um lugar absolutamente lindo. Onde o mar encontra terra verdejante e descansa os olhos da gente. Ali, eu vi dunas de areia. Eu vi águas transparente e seus peixes. Vi trilhas e árvores e cachoeiras... e um caminho que parecia mágico, daquele de bosques antigos que talvez sonhemos de outras vidas.

Eu vi o mar subir em pedras, o que me fez pensar em Netuno subindo as terras mediterrâneas.
E vi as espumas do mar decorando a areia, e pensei em Tethys recebendo Deuses em seu seio de carinho e cuidado. Vi Gaia se espalhando em montanhas. Vi Ares, inclusive, em faróis militares e em ruínas de fortes.

Vendo tudo isso, dá para entender com clareza como é que os nossos ancestrais efetivamente se relacionavam com os Deuses. Porque Eles estão, em sua maioria, revelados. Ali, manifestados naquilo que podemos ver... e melhor, sentir.

Eu sai de águas imensas pensando em Afrodite nascendo das espumas do mar. E como esse amor e esse acordar das águas traz novas ideias, perspectivas, planos e sentimentos.

Não tenho medo do mar. Mas eu sei até onde ir... e, em alguns momentos, aceito os caldos que ele dá. Porque eu acho que é assim que a gente se relaciona com Eles. Estando junto e presenciando e experimentando o que são.

Do sol que queima a pele... mas que aquece o corpo.
Do mar que limpa...
Da terra que absorve.

Ilha da Magia... magia dos Deuses que se mostram em Terra Brazilis.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Nova série de posts - Trabalhando com Deméter

Há algum tempo atrás, eu prometi no meu blog pessoal que iria falar mais do culto a Deméter/Ceres. Isso é coisa rara de encontrar, experiências pessoais de devotos de Deméter. Mas ficou só na promessa... só que eu acho que já é hora de reavivar isso, e que o melhor lugar para esses posts é aqui. Tem mais visibilidade, pode ajudar mais pessoas. E além disso não cabe no meu outro blog, o Escrito em Ametista, que tem uma proposta diferente.

Com isso decidido, passei dias pensando no que escrever até que estabeleci o roteiro. Por isso estou fazendo este post inaugural: quero que vocês conheçam o roteiro e deem sugestões. Inicialmente, pensei nas seguintes pautas:

1 - Quem é Deméter e porque cultuá-la
2 - Fazer pão e a relação da deusa com a comida
3 - Oferendas para Deméter
4 - Ritos privados e ritos públicos
5 - A questão do mistério
6 - A relação Deméter/Ceres

Que tal? Sugestões? Aguardem que em breve eu solto o primeiro.

Só deixando claro, esses textos se baseiam na minha experiência. Lógico que eu estudo bastante sobre a deusa e sobre suas formas de culto, mas tem coisas que você só aprende e vive na prática. Por isso, outros pagãos podem ter experiências diferentes das minhas ou pensar de maneira diferente, mas eles não estarão errados. Nem eu.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Saturnália - nosso rito

Quase um mês depois, estou voltando para falar da minha Saturnália.

Desculpem a demora. Mas fim de ano é corrido no trabalho, aí eu saí de férias, aí eu usei essa semana para acertar a vida (no trabalho, nas minhas aulas de dança, etc). Conclusão: só consegui postar agora.

Foi uma celebração muito alegre e muito boa. Todo mundo que estava presente gostou e se divertiu, e era esse o espírito que eu queria levar para a coisa. Bebemos muito vinho e rimos muito!

Como era uma festival com vários deuses, não só com Saturno, eu montei o altar dele em um cantinho, fora do altar principal, para não misturar energias. Eu coloquei uma imagem dele, que imprimi da internet e encaixei num porta-retrato. É uma gravura mostrando o deus em um nicho, com o escrito SATVRNVS em cima, carregando uma foice. É bem legal e bem romana.

Coloquei, também, uma imagem de São Longuinho, por sua relação com aquele lance de Cronos ser o hermitão e ancião. Peguei essa ideia de um blog que agora eu não lembro qual é, mas se achar eu indico. Além disso a Pietra, fez uma cornucópia para mim, que eu enchi de uvas - já que ele é relaciona a colheita da uva. Eu coloquei também vinho, uma máscara, uma foice (eu tenho duas, uma para Saturno e outra para Deméter) e um símbolo fálico esculpido para mim pela Sarah. E os presentes de Saturnália do povo, que eram velas coloridas e incensos. Como os romanos tinham costume de se presentar com velas e bonecas de cera nesse festival, eu tive essa ideia para manter a tradição.

O melhor de tudo foi ver que, no começo, todo mundo estava com aquela cara séria de "Uh, ritual para Cronos". Pessoal tem medo dele, sabe? Mesmo que eu falasse que o lance ia ser outro, já que Saturno não tem aquela seriedade que Cronos tem e que é um deus muito mais cabeça fresca, ninguém botou uma fé. Até que, conforme íamos trabalhando o deus dentro do rito, as pessoas começaram a rir mais alto, falar mais alto, beber e fumar mais e finalmente eles perceberam o que eu estava querendo dizer: que Saturno é um deus que nos liberta de padrões e que gosta de festa, beberagem, comilança e risadas.

Foi uma excelente celebração e com certeza vou fazer de novo neste ano!

Só vou ficar devendo a foto... ninguém fotografou o ritual! Mas tenho fotos da imagem do meu altar com os presentinhos. Assim que meu celular resolver conectar com o bluetooth do computador, eu posto.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Na palestra de ontem...


Aconteceu uma coisa muito interessante... que já havia me acontecido antes, mas que eu pude, dessa vez, me defender, defender meu ponto e saber que OK quando as pessoas pensam diferente, sem exasperação.

Antes de contar o acontecido mesmo, eu quero expressar minha alegria com as "caravanas" que vieram até mim ontem. Pessoas de Santos e Sorocaba vieram para me ver e me ouvir. Achei bonito e fez a palestra ficar ainda mais cuidada e rica, pois houveram perguntas e ponderações diferentes. Obrigada, aos presentes!

Bom, agora, senta que lá vem a história.

Estavamos já terminando a palestra e o tema foram os caminhos da Bruxaria Italiana que, a despeito de podermos fazer poucas generalizações, podemos pensar em 3 grandes "caminhos": Stregheria e a proposta do Raven Grimassi; Stregoneria, e as práticas tradicionais, que é o nosso caso aqui no blog; e a Benedicária, e as streghe que lidam com suas tradições dentro do catolicismo. E muito conversamos sobre isso, e santos e a beleza de algumas imagens sacras e como isso embeleza nossas casas, oratórios e ritos. Quando, uma pessoa que já estava deitado no meio da sala, vira e pergunta:
- O que as bruxas pensam de Deus?
- Qual Deus?, perguntei eu.
- O único Deus, o Criador do Universo, respondeu ele.
- Bem, eu disse, eu etendo o que vc está dizendo, embora como politeísta, eu não enxergue as coisas assim. Nós, bruxas, pensamos que, se vc é um bom cristão é ótimo que se creia em Deus. E que essa é uma deidade muito grande, muito importante. Mas para gente como ele (apontando para o Jota, amigo meu) e eu, o Universo começou com o Caos e daí, Gaia e Urano, e por ai vai.
- Então, são diferentes culturas?, perguntou a pessoa.
- Sim, cada cultura e tempo histórico, traz um sistema de crenças para um povo, eu coloquei.

Ai, veio a parte X, porque até aqui a coisa até que vinha bem. Ele disse:
- Sabe, eu sou cabalista e acredito que Deus e a igreja católica que organizaram o mundo e homens para sua melhor civilidade.
E ai eu disse:
- Se vc é um bom cristão, ok... mas acho que as culturas tiveram seus momentos regulatórios, vide Maomé e os povos árabes.
A resposta foi:
- Eu penso que os cabalistas e os cristãos estão aqui (menção com a mão para cima) e as bruxas, estão aqui (menção com a mão para baixo).

Foi quando eu me muni de todo o bom estado de espírito e disse:
- É mesmo? Que bom, um dia a gente chega lá. Agora, olha esse cristal. É um cristal em sua essência... não muda, mas tem pontas diferentes. Qual ponta vc está olhando? Nossa cultura, nossos Deuses e nossa crença são importantes e bem feitos e mais: a cabala não quer dizer nada pra mim. Simples assim.

Bom, fim da história, a pessoa saiu, foi embora e não disse adeus a ninguém. Eu terminei calma, mas pensando em como as pessoas ainda tem um pensamentos autocentrado. Azar...

Meus Deuses e Ancestrais sorriem e seguimos em festa e devoção.