quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Trívia e Diana

O Fernando, companheiro e amigo de listas e comunidades há uns anos, enviou uma dica muito legal na lista do Stregheria Pratica. Ele nos mandou o link de uma revista acadêmica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) chamada Calíope que tem alguns artigos bem legais. O que eu gostei foi "Elementos Religiosos nas Elegias de Tíbulo", da professora Zelia de Almeida Cardoso.

O foco do texto é sobre os símbolos e objetos que os romanos usavam para proteger suas casas, descobertos pela historiadora a partir de pesquisas e análises das evocações do poeta latino Tíbulo.
Os deuses citados no artigo como protetores são Priapo, Janus, Terminus, Ceres, Apolo e a Trívia - que, na verdade, é a versão "romanizada" de Hécate.

Um dos trechos que achei bem interessante e super há ver com a coisa toda da stregoneria é o trecho em que a autora relaciona a Trívia com Diana:
"(...) Quanto a Trívia, não podemos deixar de mencioná-la com certo destaque. Figura polivalente, deusa triforme (dea triformis)41, patrona da feitiçaria e das práticas mágicas, invocada nas doenças, dado o seu poder de curá-las, Trívia apresenta características nitidamente apotropaicas. Segundo Plessis e Lejay42, Trivia é um dos epítetos de Hécate, a “deusa dos espectros e dos espíritos”, que “pertence à religião popular e não figura no brilhante Olimpo das epopéias homéricas”. Sua verdadeira fisionomia só aparece depois do século V a.C., na Grécia, e sua natureza a associa, no culto e na literatura, a Ártemis/Diana, também considerada como hécate (do grego hekáte), “a que atira longe seus dardos”.

Ártemis caçadora se assemelha, portanto, a Hécate e, em Roma, as duas deusas, embora cada uma guarde algumas características específicas43, acabam por fundir-se numa mesma divindade. São muito numerosos os textos literários latinos que documentam essa fusão. Na Eneida44, Virgílio emprega a expressão tria uirginis ora Dianae (“os três rostos da virgem Diana”) como aposto de Hécate; em duas passagens, referindose à Sibila de Cumas e ao templo de Apolo, associa Trívia a Febo45, identificando-a com Diana; refere-se aos bosques de Diana, em Nemi, como “bosques de Trívia” ou “bosques de Hécate”46 e ao lago de Diana, perto
do qual havia um templo consagrado à deusa, como “lago de Trívia”47. Propércio48 e, mais tarde, Sêneca49 também procedem à assimilação das duas divindades (...)"

Eu tenho uma teoria - meio pretensioso dizer isso, mas não achei termo melhor -, de que Diana, numa correspondência com os deuses gregos, teria mais relação com Hékate do que com Ártemis. Foi bem interessante esse respaldo científico - mostra que não é esquizofrenia...

Fica a sugestão para pensar e debater. E trocarmos impressões sobre a associação das divindades gregas e romanas.

O link para ler o artigo todo está em http://www.letras.ufrj.br/pgclassicas/caliope12.pdf. É só correr o arquivo até a página 93.

4 comentários:

Tenda de Umbanda disse...

"e ao lago de Diana, perto
do qual havia um templo consagrado à deusa, como “lago de Trívia”47."

-----> Lado?! De Trívia?!!
Tá, agora estou com meeeeedo. rs.

Pietra disse...

A coisa de Diana e de um lago sempre foi forte... tanto que em Nemi, temos um santuário de Diana até hj =)

Tenda de Umbanda disse...

Olha só... isso me remete muito a Oxum... que coisa de Donzela, hein?!

Green Womyn disse...

Olha só que coincidência: Zelia de Almeida Cardoso é mãe de uma professora minha da faculdade, a Elis!!!!