Ao invés disso, estou desenhando sigilos de proteção e preparando as ferramentas com que alguém que amo estará amanhã fazendo sua própria magia; ela a seu modo também é uma bruxa.
A diferença é que ela, ao contrário de mim e de outras mulheres desta família, decidiu um dia que não queria lidar com essas coisas. Que não se sentia forte, que achava que não era o bastante, que não lhe servia.
Eu não acredito em livre arbítrio, sou helenista caixa de maizena, acho que os deuses mandam na gente. Ela é católica - acredita em livre arbítrio.
Eu não discuto seu livre arbítrio. Mas os sonhos, ela os tem, mesmo fugindo deles. E quando menos espera, lá vem ela, pedindo um sigilo de proteção ou uma reza forte, aconselhando alguém ou fazendo uma limpeza, jogando sal ou espantando mal olhado .
Tenho reparado que nos últimos tempos, ela tem lidado melhor com isso. Com o fato de que não podemos negar que nosso papel na sociedade é espantar coisas, proteger coisas, tecer feitiços e cozinhar intenções. E que não importa se eu invoco Hécate e ela São Miguel Arcanjo, se eu queimo ervas e ela incenso de oração, se ela faz uma figa discreta e eu um mano cornuto na frente do peito, nós trabalhamos bem ajudando uma a outra.
Este ofício independe de religião, e cada vez mais eu creio que também independe de vontade. Parece que alguns não conseguem fugir do que são.
E eu, anoto os símbolos que ela me pediu para procurar, enquanto separamos carvão e sal, e preparo minhas velas, e enquanto ela separa o terço eu faço sortilégios de proteção sobre ela.Queria que a vida fosse fácil e nada disso necessário. Mas acho bonito, nós duas assim, vestindo jaquetas vermelhas e discutindo formas de afastar juntas um mal que teima em se aproximar da comunidade. Porque é isso que fazemos, não? Nós bruxas que não se dizem bruxas, nós que nos encontramos sob a sombra das árvores fazendo tranças de ervas e olhando a passagem das pessoas ao longe.
Nós cuidamos do nosso vilarejo, para que o leite não talhe e as plantações não sequem.