segunda-feira, 7 de junho de 2010

Bruxaria Italiana: diferentes conceitos de práticas.

O texto abaixo foi escrito por mim e por Pietra em outubro de 2007 e foi originalmente publicado no site Tribos de Gaia. Como eu o citei em um post anterior, acho que seria interessante tê-lo aqui também.

Bruxaria Italiana: diferentes conceitos de práticas. Grimassi x Magliocco

As idéias e conceitos acerca da Bruxaria Italiana e suas denominações em italiano, Stregheria e Stregoneria são diversas, dado o grande número de praticantes e, com eles, de diferentes localidades. Aqui no Brasil são muito conhecidos os conceitos de Bruxaria Italiana de Sabina Magliocco, antropóloga, e Raven Grimassi, autor de livros e praticante de Bruxaria.

Este texto tem o objetivo de apresentar os conceitos desses autores para que sejam conhecidos e esclarecidos, além de ser uma forma de mostrar como a Bruxaria Italiana é rica nela mesma e que pode e deve ser profundamente estudada. Ou seja, de como entender temas que são dados hoje em dia em duas diferentes óticas.

A partir de 2002, aproximadamente, e com a publicação de textos da professora doutora Sabina Magliocco em sites como o Pomegranate Journal, o autor norte-americano e praticante de diferentes ramos da Bruxaria como a Stregheria e a Wicca, Raven Grimassi, passou a publicar textos e artigos refutando as idéias da professora acerca das práticas de magia popular x bruxaria.

O conteúdo dos textos é completamente oposto um ao outro. Para que leitores, pesquisadores e buscadores não se confundam e para que conceitos e práticas se tornem claros, segue então uma apresentação de cada autor e de suas teorias.

Raven Grimassi e a Stregheria - por Pietra

É sabido que eu comecei meus estudos de Bruxaria Italiana com as obras do Raven Grimassi, tanto que, em 2000, escrevi uma série de apostilas baseadas nas práticas aricianas e colocadas na obra Italian Witchcraft, para que a Stregheria pudesse tomar algumas novas formas por aqui.

O fato é que o tempo passou, o livro Italian Witchcraft não foi traduzido no Brasil e eu tive chance de ter muitos contatos com outros praticantes, até ter recebido a minha iniciação pelo meu pai, dentro da minha casa. As minhas práticas mudaram radicalmente.

Segue, então, um pouco sobre Grimassi e a Stregheria, por ele mesmo. O material abaixo foi retirado, traduzido ou escrito baseado no que o autor disponibiliza em seus sites: www.stregheria.com e www.ravengrimassi.net

"Raven Grimassi nasceu em 1951 de uma imigrante italiana que chegou aos EUA (...) em 1946. Desde muito jovem começou a estudar o folclore e a bruxaria italianos, a velha religião da Itália antiga. (...)"

"Raven Grimassi é professor e praticante da Arte por aproximadamente 30 anos. Ele é treinado na tradição familiar de Bruxaria Italiana (também conhecida como Stregheria), e também é iniciado em diversas tradições da Wicca, incluindo Brittic Wicca e Tradição Pictish-Gaelic. Atualmente é o Directing Elder of the Arician Ways. Raven considera que o trabalho de sua vida é garantir a sobrevivência dos antigos conhecimentos e lendas das bruxas juntamente com os ensinamentos ancestrais da Velha Religião" (do site www.ravengrimassi.net Capturado em 10\8\2007 - tradução minha).

Livros do autor - principais:
- Beltane;
- Italian Witchcraft;
- Hereditary Witchcraft - traduzido para o português;
- Encyclopedia of Wicca and Witchcraft - traduzido para o português;
- Wiccan Mysteries - traduzido para o português.

Raven Grimassi aparece no cenário mágicko em 1981 com o seu livro The Ways of the Strega. Nela, o autor e praticante fala sobre a sua tradição (familiar) e de seus estudos sobre a Bruxaria Italiana e seus conhecimentos, mitos e folclores. Nasce então a Stregheria, que torna-se o sinônimo para Bruxaria Italiana.

Em suas obras e estudos, Grimassi diferencia Stregheria de Stregoneria. Segundo o autor, "stregoneria é a palavra moderna traduzida para o inglês como a palavra bruxa". Assim, ele busca na palavra stregoneria a visão de práticas mágicas não-idôneas, como uma visão medieval e de cunho "mau". De forma que Stregoneria seriam práticas mágicas que tomam o cunho cristão e assim, ofendem os praticantes da Bruxaria. Já a Stregheria é uma palavra do italiano arcaico que também significa bruxaria, mas que se remonta ao passado pagão da Itália. Grimassi se baseia em um documento de 1751 que usa a palavra stregheria, ao invés de stregoneria, para falar de praticantes de paganismo.

Portanto, para Raven Grimassi as tradições de rezas, benzimentos e orações que perduram por gerações dentro de um grupo - família, grupo, comunidade, congrega - não são formas originais de Bruxaria Italiana, mas sim, práticas daqueles que usam a magia, mas têm medo da danação e do pecado, pois estão atrás dos conceitos e ideários do Cristianismo. Assim, uma bruxa que não reconhece a cimaruta (um talismã), ou que usa feitiços de família (com rezas a santos ou o rosário) para retirar o mal-olhado, por exemplo, não são verdadeiras bruxas italianas, mas sim, praticantes de superstição e\ou magia católica.

Grimassi acredita que o culto da verdadeira Bruxaria Italiana, da Stregheria, se mantém viva desde os tempos neolíticos e posteriormente levados pelos etruscos. Segundo o autor, poucas influências vieram dos romanos, mas que existem toques da religiosidade plebéia da toscana. Os ensinamentos da Stregheria foram mantidos pela Tríade de Tradições, Fanarra, Tanarra e Janarra. Cada uma delas guarda mistérios da Natureza e foram criados pelos seguidores de Aradia depois de seu desaparecimento.

A tradição construída por Grimassi, a Ariciana, é baseada no culto de mistérios de Diana Nemorensis e no culto aos ancestrais, trabalhando os espíritos dos Lare. A tradição incorpora conhecimentos, folclore e práticas da Europa pré-cristã. Essa tradição tem uma roda óctupla, como a Wicca, mas segundo Grimassi, são diferentes no sentido de que as celebrações da Stregheria procurar incorporar em si a filosofia de "sempre adicionar, nunca remover".

Concluindo, Grimassi prega que a verdadeira Bruxaria Italiana se mantém viva na Itália desde os tempos de Aradia, a strega sagrada que (re)ensinou os plebeus ítalos os mistérios da terra e da deusa Diana. A Stregheria trata-se de uma religião sistematizada e iniciática, que não aceita a auto-iniciação, mas que solitários podem seguir por uma dedicação até a iniciação (com diferentes graus) em um grupo ou clã. É notado pelos escritos de Grimassi que a Stregheria vem crescendo dentro dos EUA com diferentes clãs ou grupos derivados de sua tradição, a Ariciana, como o Clã Umbrea, por exemplo. Trata-se também de uma religião com um calendário definido e práticas mágickas, com um grande senso hierárquico e normativo. Embora aceite que nem todas as streghe sigam sua tradição - na Itália - acredita que os aricianos são seguidores da verdadeira Bruxaria Italiana e buscam caminhos dentro das religiosidades ítalas e não necessariamente dos romanos.

Para contatar Raven Grimassi, escreva para a Llewellyn Publications:
Raven Grimassi
c/o Llewellyn Wordwide, Ltd.
PO Box 64383, Dept. K256-9
St. Paul, MN 55164-0383, USA
(se a carta for internacional, enviar um cupom postal de resposta internacional)

Com o passar do tempo e o crescimento da Stregheria, a professora doutora Sabinna Magliocco passou a fazer críticas aos conceitos de Grimassi, baseada em suas pesquisas como professora da faculdade de Antropologia da California State University, que estuda o movimento Neopagão nos EUA, de forma que ele passou a escrever vários artigos justificando seus conceitos e idéias. Esses textos podem ser encontrados em seus sites - em inglês.

Sabina Magliocco e os estudos sobre Neopaganismo - por Inês

Sabina Magliocco é uma antropóloga italiana, que estudou e reside nos EUA. Ela tem como focos de estudo religião, folclore, Bruxaria e Neopaganismo nos EUA e na Europa, conforme informações do site oficial da California State University (http://www.csun.edu/~sm32646/).

A professora defende que a Stregheria colocada por Grimassi é uma "forma de bruxaria neopagã ítalo-americana". Ou seja: a Bruxaria Italiana de Raven Grimassi é, na verdade, uma maneira neopagã de se praticar a Bruxaria, que assimila influências italianas, mas que é norte-americana e moderna em sua essência. Não é a maneira original e não é praticada pelos italianos. Para ela, Grimassi adicionou elementos wiccanos e, com isso, criou uma tradição que não se assemelhar à prática de magia na Itália.

Segundo os artigos de Magliocco, a magia e bruxaria originárias da Itália não são sistematizadas e hierárquicas. Ela chama essas práticas Magia Vernacular, ou magia regional. Esse sistema de prática de magia é, na verdade, intrinsecamente ligada à superstição e ao folclore popular. A Magia Vernacular não busca, necessariamente, o culto à divindades pagãs. Ela é uma forma de ver o mundo e de usar elementos de tradições pré-cristãs no dia-a-dia do que uma religião. Magliocco inclusive coloca que a Magia Vernacular tem seus elementos básicos no catolicismo romano, não sendo uma forma de resgate da bruxaria e de crenças pré-cristãs itálicas.

Por não ser organizada, por não ter uma hierarquia e por não estar centrada em uma única figura religiosa, a magia praticada na Itália é diferente em cada região, mas mantém elementos comuns, como a crença no mallocchio (mal-olhado), por exemplo.

Com isso, Magliocco derruba as hipóteses de que o culto à Diana é comum entre todas as streghe, de que todas têm em Aradia a figura central de seu culto, de que as streghe formariam uma espécie de religião secreta, hierárquica e organizada.

Ela vê, no movimento Neopagão (especialmente nos EUA), uma forma de revitalização de antigos valores religiosos pré-cristãs. Isso diferente grandemente de neopagãos como Grimassi, que acreditam, ou pelo menos defendem publicamente, que seu culto segue uma linha ininterrupta desde o período neolítico.

Para contatar a profª. Sabina Magliocco:

Department of Anthropology, CSUN
18111 Nordhoff St.
Northridge, CA 91330-8244
(818) 677-4930
Ou pelo e-mail: sabina.magliocco@csun.edu

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