Mostrando postagens com marcador ceres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ceres. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de julho de 2010

Ísis e Deméter

Ísis e Hórus
Terminei a pouco a leitura de um artigo chamado "Isis and Demeter: Symbols of Divine Moterhood" (Ísis e Deméter: Símbolos de Maternidade Divina). Esse é um tema que me interessa bastante, tendo em vista que sou devota de Deméter e que a relação de sua figura com as imagens de outras deusas mães é sempre uma discussão bem vinda.

O que gostei no trabalho foi a iniciativa do autor de contradizer teorias anteriores que sustentam a semelhança entre as duas deusas e a hipótese de que os Mistérios de Eleusis (cultos secretos em honra à Deméter e à Perséfone, relacionados com imortalidade e renascimento) seriam simples adaptações dos mistérios de Ísis.

O autor, um acadêmico chamado Vincent Arieh Tobin, do American Research Center in Egypt (Centro de Pesquisa Americano no Egito), sustenta que as similaridades entre Ísis e Deméter são menores do que suas diferenças. Para ele, o ponto central da questão é que Ísis é uma deusa muito mais relacionada a questões políticas do Egito, como a posse do trono e a validação do poder do Faraó, do que Deméter. A deusa grega tem uma relação mais intensa com a natureza em si do que com a política, e parece ter sido menos influenciada por sistemas religiosos patriarcais do que Ísis teria sido. Além disso, ele defende que diversas divindades egípcias teriam relações com símbolos de maternidade - Nephtys, Hathor, Nut - enquanto que, dentro do pensamento mítico grego, Deméter é a deusa mãe por excelência.

O autor colocar que os gregos relacionaram ambas por seus mitos girarem em torno do tema da busca por um ente querido perdido e por serem "mães sozinhas" (single parent, no original). Mesmo aí, temos diferenças entre ambas. Ísis busca o corpo do marido morto, enquanto Deméter busca a filha viva; Ísis é a imagem da esposa devotada à memória e ao legado do marido, enquanto Deméter mesmo tendo tomado consortes, não se casa. Essa última referência, segundo Tobin, pode mostrar uma relação da deusa helênica com divindades ctônicas femininas da pré-história, que não tinham relação direta com nenhum consorte.

Deméter
Por fim, o pesquisador defende ainda que os mistérios de Ísis não são um atributo original dessa deusa, tendo sido aplicados a ela por gregos e romanos em períodos posteriores ao apogeu do Egito, sendo contemporâneos aos Mistérios de Eleusis. Logo, não seria possível que houvesse uma adaptação, nem que Deméter fosse um derivado direto, porém modifica, de Ísis. Ele afirma ainda, de passagem, que os cultos eleusinos derivam de mistérios Minóicos (cretenses), não egípcios.

Eu discordo de alguns pontos colocados pelo autor, como por exemplo de que Ísis é uma divindade mais complexa do que Deméter. Acho que ambas são complexas em seus próprios escopos. Mas em geral acredito que é um trabalho muito bom, que vale a pena ser lido. O único problema é que ele está em inglês e não existe tradução do material.

O PDF com o artigo pode ser baixado neste link.

Se alguém conhecer o autor e tiver mais informações dele (como biografia, áreas de interessa, universidade em que atua etc) eu agradeço, porque até agora não consegui encontrar muita coisa.

domingo, 16 de maio de 2010

Mais uma sobre alimento

Gaia, a primeira deusa da Terra.
A Dani Sales, minha amiga do blog Mulher Verde, me mandou um texto muito legal sobre a relação de Deméter com a alimentação. O artigo fala, ainda, de como a deusa relaciona-se com Gaia e da forma como ambas tem aspectos similares de divindades férteis e nutridoras.

O texto todo, da pesquisadora Harita Meenee, pode ser lido neste link (em inglês), mas aqui eu ressalto duas passagens que achei interessantes. Fiz uma tradução livre.

"Pode soar estranho hoje em dia, mas religião e comida já foram intimamente conectadas. Garantir provisões adequadas para a sobrevivênvia era uma das principais preocupações no alvorecer da humanidade. Desde que toda a comida vem da Terra, ela veio a ser considerada como uma generosa Deusa Mãe, que cuida de sua descendência, humana ou de outro tipo. Assim, ela necessita ser propiciada e agradecida, para continuar doando suas provisões. Precisamos apenas pensar um pouco para imaginar que os primeiros ritos e oferendas tinham essa intenção. (...)

(...) O corpo de uma mulher e o corpo da Terra são similares na mente antiga: um dá à luz a crianças humanas, o outro às plantas. Os dois garantem a continuidade da vida. Na Grécia, em seus dias agrícolas, os produtos eram às vezes chamados de
gennimata, as coisas nascidas da terra. (...)".

Vale a pena ler o artigo todo, no qual a autora desenvolve essa relação com mais eloquência. Mas por esses trechos já é possível traçar um paralelo entre a importância do alimento e a importância de um culto à uma Deusa Mãe relacionada à terra.

Deméter como deusa do alimento e da colheita.
É interessante pensarmos nisso nos dias de hoje, porque a maioria de nós encontra alimentos industrializados no mercado, independentemente da época do ano. Mesmo quando não estamos na safra de um determinado vegetal, conseguimos encontrá-lo congelado ou até mesmo in natura. Com isso, perdemos a noção do caminho que o alimento percorre e, principalmente, da necessidade de colhê-lo ou estocá-lo direito. Compramos e jogamos fora a comida com uma enorme facilidade, que não existia nos tempos em que os primeiros cultos às deusas mães começaram a surgir.


Mesmo com a industrialização dos alimentos há, no começo da cadeia produtiva, uma semente que foi plantada em um pedaço de terra, ou uma árvore que está crescendo e dando frutos há anos, ou um cereal que foi colhido e virou ração para o gado ou o porco que compramos morto e congelado no açougue. Portanto, como pagãos e cultuadores do ciclo da natureza, penso que é importante termos essa consciência de que há, sim, uma terra fértil que alimenta a todos.


Não quero ser doutrinária e dizer que todos devemos prestar honras à Deméter, Gaia, Ceres, Rhea ou outra divindade da terra. Mas creio que é um assunto que pode estar na pauta do dia.

domingo, 14 de março de 2010

Deméter e o Mistério

Quarto post da série sobre culto à Deméter. Para ler os outros posts, clique aqui!

Vista das ruínas do Templo de Deméter e Kore, em Eleusis.
Deméter é uma deusa de mistérios. Seu principal culto, na cidade de Eleusis (que fica próximo a Atenas), era um rito sigiloso, sobre o qual apenas os iniciados podiam falar. Não era permitido que outras pessoas soubessem o que ocorria nos Mistérios de Eleusis.

Segundo Karl Kereny em seu livro “Archetipical Images of Mother And Daughter”, inteiramente dedicado aos mistérios de Deméter e sua filha Kore, o número de iniciados era muito grande. Praticamente toda a Grécia, e uma boa parte de Roma, já havia passado pelos ritos. Porém, as pessoas que não falavam grego eram proibidas de serem iniciadas.

Além dessa regra – ou por causa dela -, não eram permitido que o rito fosse registrado por escrito. Alguns pesquisadores falam que o Hino Homérico a Deméter é uma descrição cifrada do culto, escrita de forma que apenas os iniciados entenderiam suas palavras. Mas não é possível afirmar isso com certeza, porque foram poucas as informações  que chegaram a nós. Muito também se perdeu quando uma invasão, já no período romano, destruiu o templo. Por isso, as pessoas que possuem um interesse no aspecto religioso e ritual nos Mistérios de Eleusis tem uma certa dificuldade para encontrar referências e fazer suas adaptações em cima das poucas informações.

Esse sigilo todo em cima dos mistérios me fez ter uma postura muito rígida sobre o sigilo de meu trabalho com Deméter. Não me permito falar a qualquer pessoa o que faço para a Deusa, como faço e nem por que eu faço. É importante pensar que, no culto dela, o Mistério é uma prerrogativa imprescindível e que é uma maneira de honrá-la. Por isso, não fico confortável com a ideia de ritos abertos para Deméter.

Havia, sim, festivais públicos em honra à Deusa, como a Thesmosphoria grega e a Cerealia romana. Mas enquanto em Eleusis os fieis passavam por um processo de purificação e iniciação, trabalhando o êxtase e a epifania, nos ritos públicos a dinâmica era mais simples.

Portanto, quem está iniciando seu culto a Deméter deve ter em mente que nem tudo poderá ser compartilhado ou conversado. A maioria das coisas que você viver com e para a deusa deverá ser mantida em sigilo, por mais pressão que haja à sua volta para ser revelado. Faça dessa preservação uma oferenda para a Deusa.



Para começar a conhecer Eleusis, leia a reportagem "O que era o culto grego secreto, os Mistérios de Eleusis?", clicando aqui.

sábado, 13 de março de 2010

Um lindo texto sobre alimento

Leio sempre o blog Fio da Meada, escrito pela publicitária Silmara Franco. Ela escreve de um jeito muito gostoso e sempre tem ótimos textos. Colocando em dia a leitura dos feeds do blog, descobri um post lindo. Me identifiquei profundamente com as palavras dela e não poderia deixar de colocá-lo aqui.

Fala, por meio de uma crônica, da necessidade feminina de alimentar e de como isso pode ser um tanto opressor. Como falávamos de Deméter há uns posts atrás aqui no Stregheria Pratica, achei que combinava muito com o contexto todo.

Um trecho para vocês:

(...) O orgulho foi se dissolvendo aos poucos, deixando em seu lugar a dúvida. Impossível separar feminino e alimento, concluiu. Quem é que amamenta? A divindade que toma conta da agricultura é uma deusa, e não um deus. Ceres para os romanos, Deméter para os gregos, é mulher. Não é homem. Ela simboliza o materno, o nutritivo. A palavra cereal vem daí. Pegou o celular, Mas ele é tão distraído… Então é problema dele – pareceu ter ouvido a Clarisse, já brava, dizer. Guardou o aparelho novamente na bolsa. E sua mão ficou lá dentro, como que anexada a ele. (...)

Para ler na íntegra, clique aqui.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Oferendas para Deméter

Como eu sou muito boazinha (ô mentira deslavada... rs), neste post da série sobre culto à Deméter, resolvi colocar mastigadinho para vocês algumas dicas de oferendas para a Deusa.

Para ler os outros posts da série, cliquem aqui e aqui.

- Comida: carne de porco, trigo, comidas com grãos, pão;
- Bebida: cerveja, tanto de cevada quanto de trigo (tipo Weiss);
- Velas: verde, marrom, azul escura;
- Incenso: ópio, olíbano;
- Ervas: melissa;
- Flores: papoula;

Acho que textos e poemas são também uma boa oferenda. Se você não quiser criar nenhum, sugiro a leitura do Hino Homérico à Deméter (ou de um trecho, já que ele é gigante) e do Hino Órfico. Alguns autores que recontam os mitos também são legais, por exemplo, O Carlos Calasso e seu "As Núpcias de Cadmo e Harmonia".

Essas oferendas foram ideias tiradas de várias fontes, como site do Reconstrucionismo Helênico no Brasil, o Theoi Project, o livro "Archetypal Image of Mother And Daughter" (Karl Kereny) e de conversas com outros pagãos por aí.

________________

Ainda está rolando as inscrições para o sorteio de um exemplar do livro "Aradia". Para saber como se escrever, leia este post.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A relação de Deméter com a comida

Segundo post da série sobre culto a Deméter. Para conferir o primeiro, clique aqui.

Fazer pão sempre foi parte das minhas oferendas e do meu culto para Deméter. Primeiro, porque Ela é a Deusa que ensina a humanidade a isso. Segundo, porque seu principal domínio é o alimento. Além de tudo o que eu falei na primeira parte desta série, Deméter é essencialmente a deusa da comida.

Na Grécia Ela é - ou era- a Senhora dos Trigais. Ela é a mãe do trigo, a responsável pelo seu crescimento. Seu cabelo é retratado como dourado, por essa ser a cor do trigo maduro. E se pensarmos em uma sociedade na qual uma das bases da alimentação era o trigo, faz muito sentido ele ser identificado com uma divindade maternal e provedora.

Aqui no Brasil nós temos uma produção de trigo pequena, se comparada a outros países, concentrada na Região Sul. O clima frio de lá é o único no qual a planta se adapta por aqui. O trigo precisa de um tempo não muito quente, nem úmido demais, e por isso não se desenvolve em outras regiões do país. Então, em uma terra como a nossa, não acho errado cultuá-la como a senhora de todos os grãos, não só do trigo. Principalmente porque a base da nossa alimentação, o arroz e o feijão, são grãos.

Minhas oferendas para ela já comportaram soja, feijão, arroz e milho. E, sempre que possível, carne de porco, já que esse era seu animal sagrado. Segundo Karl Kereny em seu livro "Archetipical Images of Mother and Daughter", sobre os Mistérios de Eleusis, a purificação dos iniciandos era feita com sangue de porco e, depois de morto, o animal era assado e todos compartilhavam da carne. Tem relatos que contam que o templo de Deméter cheirava a carne assada.

Por isso eu sempre prezo pelo alimento nas oferendas de Deméter. E sempre que eu faço pão em seu nome, eu dou para as pessoas comerem. Se eu abro uma cerveja para Ela, separo um copo (que depois eu despejo na terra) para o altar, e o resto eu tomo. Evito ao máximo o desperdício nas oferendas de Deméter. Não acho que a deusa gostaria disso.

Para aqueles que estão começando uma aproximação com essa deusa, eu indico começar pela comida. Agradecê-la na hora das refeições é um primeiro passo. Lembrar Dela quando for cozinhar é outro. Oferecer um gole da sua cerveja para a deusa - pode ser a de cevada mesmo - também é uma boa forma de começar.

O que eu coloquei aqui é apenas um começo. Para se aprofundar no assunto, eu indico o capítulo sobre as deusas mães do livro "O Poder do Mito", de Joseph Campbell.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Quem é Deméter?

Primeiro post da série. Espero que gostem. Só que está um pouco grande...

Quando Deméter entrou na minha vida, em 2007, eu não sabia direito quem Ela era e não entendi, a princípio, porque uma deusas dessas ia estar comigo. Assim como a maioria das pessoas, eu atribuía à Deusa apenas atributos maternais que não tinham lugar na minha vida aos 21 anos. Mas aos poucos eu fui conhecendo a divindade, seus diversos atributos, suas formas de culto, suas oferendas... e assim eu entendi que, realmente, temos muito em comum.

Apesar de sempre lembrarmos do mito do rapto de Kore, um episódio que reforça o caráter materno de Deméter, essa não é sua única característica. A chave para entende-La é, na verdade, o pensamento de que Ela é uma deusa da terra e a patrona da agricultura. Por conta disso, ganha atributos de mãe: porque Ela é a terra fértil e cultivada que fornece o alimento dos humanos. Por isso seu nome significa, literalmente, Deusa-Mãe - das raízes Da, Deo ou Do, Deusa, e do sufixo Meter ou Mater, Mãe.

Foi Deméter quem ensinou Triptolemos a cultivar o trigo e a fazer o pão, e foi em seu carro puxado por serpentes que ele andou pelo mundo repassando seu conhecimento às pessoas pelo mundo. Por isso, é graças à deusa e sua benevolência que os mortais deixam de ser nômades e, assim, começam a constituir cidades e sociedades - já que, com a agricultura, eles não precisavam ficar se mudando toda hora em busca de comida. Por isso, Ela também é considerada uma deusa civilizatória, mesmo tendo uma intrínseca relação com a vida campestre por seus atributos agrícolas.

Atributos, esses, que ela não perde mesmo nos cultos urbanos, por ser uma deusa da terra. Com isso, podemos ter uma outra interpretação do mito do rapto de sua filha. Ele nos mostra claramente a transformação da plantação durante os vários períodos do ano: primeiro ela é a semente escondida na terra, que transforma-se em broto, amadurece e é colhida. Essa é a alegoria chave já que Kore, retorna na Primavera como o broto do trigo e vai para o Hades, no final do Verão, como a planta que é colhida e, portanto, morta. Mas como a agricultura - e a vida - consiste em ciclos, fica sua semente, que permite que ela seja plantada novamente e que tudo volte. Por isso Kore-Perséfone vai e volta, todos os anos, da Mãe para o marido, do marido para a Mãe.

Além dos seus ciclos com Kore-Perséfone, Deméter tem um papel importante como uma das Crônidas, os seis filhos de Cronos e Rhea. Ela é uma das mais velhas, nascendo logo após Héstia e antes de Hera. Para mim, as irmãs representam os três aspectos essenciais da constituição do genos (família) na maioria das pólis da Grécia: Ancestralidade (Héstia), Maternidade (Deméter) e Casamento (Hera). Porém, por ser uma deusa solteira, que toma consortes mas não se casa com eles, ela mantém uma certa independência que Hera não tem, e quem nem mesmo Héstia, que abdica do casamento e do sexo, possui.

Outra característica marcante de Deméter nesse aspecto é sua soberania. Ela é uma mãe de muitos filhos, inclusive de descendentes de dois reis entre os deuses, Zeus e Posídon. Além disso existe o romance famoso com o agricultor Iasion (que alguns autores dizem ser, na verdade, o herói Jasão), que gerou Pluto, o deus da riqueza. Mas, em nenhum momento, existe a citação ou a intenção de casamento entre Ela e seus amantes. Deméter é o tipo de mãe que entende os filhos como dela, não dos pais. Ela gera, alimenta, dá a luz e cria sem a interferência masculina - só na concepção. Há, ainda, um traço de características de deusas da soberania da terra, porque ela pode ser amante, pode gerar filhos dos reis, pode dar sua filha em casamento a outro rei, mas ela não se submete totalmente a nenhuma deles.

Portanto, Deméter é uma divindade da terra, da fertilidade, patrona da agricultura. É, ainda, fortemente associada à maternidade e à soberania da terra, que mesmo explorada pelo agricultor não é completamente domada. E é uma deusa de muitos epítetos e muitos domínios.

O culto a Deméter era essencial em diversas cidades gregas (como Atenas, por exemplo) e depois foi instituído em roma, quando Ceres foi associada à deusa grega. Os ritos públicos garantiam a sobrevivência do estado e garantiam que não haveria uma grande estiagem ou uma grande fome. Alguns rito, apenas para mulheres, eram voltados para os atributos de fertilidade e maternidade. E haviam, ainda, os ritos de mistérios - que são um post à parte nessa série.

Eu já fui questionada sobre o meu culto, sobre o por quê ser devota de uma divindade agrícola morando numa cidade como São Paulo. Apesar de não vermos, nós dependemos do que vem do campo. Mesmo que a gente compre cereais integrais em sacos plásticos no mercado, eles vieram de algum lugar que tinha terra e foram plantados em algum momento. Além disso, se pensarmos em Deméter como a deusa que possibilita a criação das civilizações sedentárias, nós não estamos errados em cultuá-las nas nossas cidades.

Vejo em Deméter muitos atributos que pagãos buscam na Grande Mãe cultuada pela Wicca, e até atributos de outras deusas da terra, dos panteões gregos e romanos e até de outras culturas, como a celta e a africana. Não estou dizendo que todos devem cultuá-la, obviamente, mas que ter essa visão nos ajuda a compreender os ciclos da terra e a necessidade de honrarmos uma deusa mãe, independente de qual for.

Fiz uma lista de mitos interessantes de Deméter. Coloquei os links do Theoi Project que, apesar de ser em inglês, é a fonte mais confiável na internet.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Nova série de posts - Trabalhando com Deméter

Há algum tempo atrás, eu prometi no meu blog pessoal que iria falar mais do culto a Deméter/Ceres. Isso é coisa rara de encontrar, experiências pessoais de devotos de Deméter. Mas ficou só na promessa... só que eu acho que já é hora de reavivar isso, e que o melhor lugar para esses posts é aqui. Tem mais visibilidade, pode ajudar mais pessoas. E além disso não cabe no meu outro blog, o Escrito em Ametista, que tem uma proposta diferente.

Com isso decidido, passei dias pensando no que escrever até que estabeleci o roteiro. Por isso estou fazendo este post inaugural: quero que vocês conheçam o roteiro e deem sugestões. Inicialmente, pensei nas seguintes pautas:

1 - Quem é Deméter e porque cultuá-la
2 - Fazer pão e a relação da deusa com a comida
3 - Oferendas para Deméter
4 - Ritos privados e ritos públicos
5 - A questão do mistério
6 - A relação Deméter/Ceres

Que tal? Sugestões? Aguardem que em breve eu solto o primeiro.

Só deixando claro, esses textos se baseiam na minha experiência. Lógico que eu estudo bastante sobre a deusa e sobre suas formas de culto, mas tem coisas que você só aprende e vive na prática. Por isso, outros pagãos podem ter experiências diferentes das minhas ou pensar de maneira diferente, mas eles não estarão errados. Nem eu.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Palestra sobre Deusas da Terra

Dia 7 de fevereiro foi dia de Tarde Esotérica, com o tema Divino Feminino. E foi uma tarde muito interessante.

Falei um pouco sobre Deusas da Terra. E, fui pensando e me colocando de como me parece que, com o passar do tempo e com o refinamento do pensamento de um povo, suas deidades também ganham esse refinamento e sofisticação. E que, para os gregos, isso começa com Gaia, a terra que nos sustenta e vai até Perséfone, o trigo de Deméter. Entre as duas, se faz os Mistérios de Elêusis, e com elas vive o segredo da vida e da morte.

O que é muito bonito é que isso tudo acontece com as deusas, sim, mas sem os Deuses, como Zeus, Hades e Poseidon, esses movimentos não se dão.

O que eu quero dizer é que, sim, as Deusas carregam a essência da Terra e da vida, e do sustento. Mas que sem a passagem dos Deuses, do masculino, não fertilizamos e os ciclos não se passam.

Por fim, nessa tarde de Deusas, ajudamos uma amiga a pensar seu feminino e como isso é importante de ser pensado, pois o feminino não é igual para todas as mulheres, nem para todas as pessoas. Leto é um feminino... Deméter, outro. Afrodite, mais um... Athena, ainda outro. E assim somos, pessoas diferentes, como as folhas das plantas tantas sobre o corpo de Gaia.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Pão

Quatro tabletes de fermento "fleishman", como diz a minha avó - o famoso fermento químico, aquele de quadradinho. Quatro colheres de açúcar. O fermento vai dissolvendo no açúcar. Depois vai a manteiga. Derrete tudo e deixa descansar uns 40 minutos. Passado o tempo, é colocar farinha, ovos, mais manteiga (ou banha) e amassar na tábua da mesa.

Na madeira. Se for na pedra ele fica gelado e não cresce.

Amassar, amassar, amassar. Quanto mais sovado, mais fofo ficará o pão. Essa é a melhor parte do processo: enquanto eu sovo a massa, desejo que o ele cresça. E que, as pessoas que o comerem, tenham prosperidade, fartura e alimento. Que ele possa matar a fome e trazer as bênçãos da deusa da colheita. Que ele seja um pedacinho dessa deusa, que vive na farinha de trigo, no leite, no ovo e no meu trabalho.

Eu penso em como, de certa forma, o fazer pão me liga com todas as mulheres que vieram antes de mim, que passaram manhãs sovando outros pães, em mesas de madeira maiores que a minha. Cozinheiras mais experientes, mas que colocaram nesse pouco de massa as mesmas inteções que eu coloco na minha porção.

Depois de sovar, o trabalho é simples. Dividir os nacos, separar as assadeiras, colocar a manteiga por cima, enfiar no forno e esperar o cheiro encher a casa aos poucos.