quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ofício e família

São duas e meia da manhã e eu deveria esta dormindo porque daqui a seis horas estarei saindo para o trabalho.

Ao invés disso, estou desenhando sigilos de proteção e preparando as ferramentas com que alguém que amo estará amanhã fazendo sua própria magia; ela a seu modo também é uma bruxa.

A diferença é que ela, ao contrário de mim e de outras mulheres desta família, decidiu um dia que não queria lidar com essas coisas. Que não se sentia forte, que achava que não era o bastante, que não lhe servia.

Eu não acredito em livre arbítrio, sou helenista caixa de maizena, acho que os deuses mandam na gente. Ela é católica - acredita em livre arbítrio.

Eu não discuto seu livre arbítrio. Mas os sonhos, ela os tem, mesmo fugindo deles. E quando menos espera, lá vem ela, pedindo um sigilo de proteção ou uma reza forte, aconselhando alguém ou fazendo uma limpeza, jogando sal ou espantando mal olhado .

Tenho reparado que nos últimos tempos, ela tem lidado melhor com isso. Com o fato de que não podemos negar que nosso papel na sociedade é espantar coisas, proteger coisas, tecer feitiços e cozinhar intenções. E que não importa se eu invoco Hécate e ela São Miguel Arcanjo, se eu queimo ervas e ela incenso de oração, se ela faz uma figa discreta e eu um mano cornuto na frente do peito, nós trabalhamos bem ajudando uma a outra.

Este ofício independe de religião, e cada vez mais eu creio que também independe de vontade. Parece que alguns não conseguem fugir do que são.

E eu, anoto os símbolos que ela me pediu para procurar, enquanto separamos carvão e sal, e preparo minhas velas, e enquanto ela separa o terço eu faço sortilégios de proteção sobre ela.

Queria que a vida fosse fácil e nada disso necessário. Mas acho bonito, nós duas assim, vestindo jaquetas vermelhas e discutindo formas de afastar juntas um mal que teima em se aproximar da comunidade. Porque é isso que fazemos, não? Nós bruxas que não se dizem bruxas, nós que nos encontramos sob a sombra das árvores fazendo tranças de ervas e olhando a passagem das pessoas ao longe.

Nós cuidamos do nosso vilarejo, para que o leite não talhe e as plantações não sequem.

3 comentários:

Spooky disse...

Muito bonita passagem, sempre temos esses comportamentos que nos levam a nossa origem,mas creio que existe tanto a vontade dos Deuses quanto a nossas vontades.
Minha avó é religiosa católica, benzedeira e com um quintal cheio de plantas, ela é uma bruxa. Embora se explica-se isso pra ela, ela poderia até me questionar ou negar isso.

Inês disse...

Adorei o texto. Tenho um lance parecido com a minha mãe e é muito bom poder contar com esses momentos de família.

([säm]) disse...

Também acho que isso seja algo que está no sangue de vocês, não se pode fugir. Mas acredito em "semi-livre-arbítrio", sabe como é? As parcas tecendo nosso destino...mas a gente escolhendo como chegar lá.

Minha mãe é católica (daquelas chatas que não respeitam a religião da gente saka?). Mas ela tem uma intuição muito poderosa! E a energia dela direcionada é algo que nasceu com ela (mesmo ela tentando atrofiar..de repente, sem esforço lá está ao alcance dela).

Ela já brigou comigo várias vezes por causa de bruxaria...mas vez ou outra vem pedir pra eu ler o tarô pra ela...pedir sal grosso ou banho de ervas...e mais ainda, velas.

Eu fiz um terço pra ela de cristais...mas tirei o crucifixo e coloquei uma medalha de Maria.
>D

hahahhaha

Ela amou.