domingo, 20 de janeiro de 2008

Angitia - deusa das serpentes

Já falei, meio sem querer, sobre essa deusa aqui no blog. Mas na época eu não sabia que ela existia, nem de onde ela vinha. Então, para complementar o texto "San Domenico", deixo uma tradução que eu queria fazer faz tempo sobre Angitia.

A tradução é livre e foi feita a partir de mais um ótimo trabalho da Thalia Took no Obscuro Godess On Line Directory. Para ler o original, clique aqui.

Angitia

Angitia (nome latino da deusa Anagtia) é uma divindade Osci das cobras e da cura, especialmente reverenciada pelos Marsi, uma tribo guerreira que viveu do leste de Roma até os Montes Apeninos (algumas vezes chamados de Colinas dos Marsi) e que falava o dialeto Sabellico*. Ela era famosa por sua habilidade de curar aqueles que foram envenenados, especialmente as pessoas mordidas por cobras. Existia, ainda, a lenda de que esta deusa possuía o poder de matar serpentes através de encantamentos. Os Marsi também possuíam a reputação de curandeiros, magos e encantadores de cobras. De fato, neste tempo, os Serpari, caçadores de serpentes que viviam naquela reigão, eram tidos em alta conta. Em Roma, durante o primeiro século da Era Cristã, as atividades dos Marsi como curandeiros e adivinhos, assim como seu conhecimento da terra, foram consideradas como bruxaria.

Angitia tinha o conhecimento das ervas que curavam, e era honrada em um bosque, chamado de Silva Angitia ou Lucus Angitiae, e em um templo (com um tesouro), ambos localizados na margem sudoeste do Lago Fucinus. Esse lago era largo (mais de 30 milhas de circunferência – cerca de 48 km**), que não possuía nenhuma passagem e que costumava inundar as cidades próximas depois das chuvas da primavera, o que pode ser a razão de ter sido drenado no século XIX. Nesta região também existe a história de Umbro, que foi um sacerdote e vidente lendário dos Marsi. Assim como Angitia, era um curandeiro e um encantador de serpentes; de acordo com a Eneida, o lago Fucinus encheu quando ele foi morto em uma batalha.

Acredita-se que o nome Angitia deriva da palavra angere, que significa “doença” ou “desgraça”, se referindo a sua habilidade de matar cobras, os anguis, “cobra” ou “serpente”. Algumas inscrições mencionam Angitia no plural, como um grupo, as Angitiae (similar a Sulis e as Sulivae) e, em uma inscrição, ela é mencionada como Angerona, deusa do silêncio e do Solstício de Inverno. De acordo com Servius, quem nomeou Angitia foi a bruxa Medea, que voou até a Itália depois que sua a conspiração para envenenar Teseu foi descoberta. Medea é associada com feitiçaria e serpentes ou dragões, por isso ela é associada com a deusa da magia e das cobras dos Marsi.

A atual região de Abruzzo, na Itália, terra natal dos Marsi, ainda é associada com cobras. Lá é celebrada a Festa dos Serpari. Esta celebração, primeiramente mencionada na Idade Média (mas muito mais antiga), é comemorada na vila de Cocullo (cuja população é de 316 habitantes) na primeira quinta-feira de maio. Os Serpari são uma fraternidade hereditária de encantadores de serpente, responsáveis por conduzir o festival.

Em algum momento próximo do primeiro dia da primavera, os Serpari capturam as cobras (a maioria delas de uma espécie calma e não venenosa), e a trazem para a vila, onde suas presas são removidas. Eles a prendem em caixas de madeira ou terracota e as tratam bem até o festival. No dia da festa, os peregrinos se encontram na igreja de San Domenico. Acredita-se que, assim como Angitia, o santo tem poderes de cura, especialmente em se tratando de mordidas de cobras e de cães raivosos e de dores de dentes. Depois da missa, a estátua do santo é carregada em procissão, e coberta com cobras vivas. A procissão é seguida pelos Serpari e por outros fiéis, que também seguem cobertos de serpentes. Em uma tradição mais antiga, as serpentes são mortas e comidas em um banquete, mas hoje elas foram substituídas pelo pão em formato de cobra – alguns representando cobras de duas cabeças. Nos dias de hoje, elas não são mortas, mas soltas de volta no bosque quando o festival termina. A propósito, os dentes das cobras continuam crescendo e, em média uma semana depois, dependendo da espécie, suas presas voltam ao normal.

Angitia é representada nesta figura com várias cobras rastejantes, na frente do Arum dracunculus, descrito pos Plínio como sendo uma cura para mordidas de cobra, com as Colinas dos Marsi ao fundo. O desenho foi feito com lápis aquarela.

Nomes alternativos: Angizia, Anagtua, Anagtia Diiva, Anguitia, Anguitina, Angitia; Ancet, uma deusa da cura dos Paeligini (outra tribo da mesma região**) que é provavelmente a mesma divindade com um nome traduzido para o dialeto deste povo. É quase certo que a Bona Dea romana é a mesma deusa, e seu festival também era celebrado nos primeiros dias de maio, assim como o de São Domenico.

Angitia também é associada com a feiticeira grega Circe.

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*Sabellan, no original em inglês. Não encontrei o nome correspondente em português.

** Nota de tradução.

Um comentário:

Pietra disse...

Acho interessante como uma boa parte das deusas romanas tem um lance com cura e com ervas...

Essa coisa da serpente e da cura me faz pensar em Hygéia, a neta de Apollo, filha de Asclépios.