quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Feitiço de família

Minha bisavó fazia quando minha avó era criança. E minha avó aprendeu. E sempre que tinha alguém doente em casa, eu já sabia exatamente. Quase gostava de estar doente só para participar daquele pequeno mistério. A panela era sempre a mesma. Usada só para isso. Sagrada na sua forma torta e rebatida, que já tinha muitos anos de idade, era dos presentes do casamento.
Minha avó morreu quando eu tinha oito anos de idade. Como é usual nessas coisas, as vezes se pula uma geração. Minha mãe nunca soube fazer.

Mas assim que eu tive autonomia em usar o fogão, aprendi. Desde então, assumi isso. Se fico doente, é sagrado. Agora, tenho um filho. Raro ficar doente, bezerro amamentado no peito até depois dos três anos de idade. Mas as vezes, como hoje, fica.

Enquanto separo ingredientes e procuro uma panela (ainda não tenho uma propícia só para isso...), explico a ele que nada é melhor quando se está doente. Que é um santo remédio e que vai ficar bem, só precisa esperar um pouco para tomar esse remédio. Meço as colheradas precisamente, porque não tenho ainda a habilidade de fazer, apenas de olhar, esses cálculos.

Uma xícara de leite
Duas colheres de sopa de maizena
Duas colheres de sopa de açucar
Duas colheres de sopa de chocolate

Misturar tudo que é pó. Depois, derramar o leite aos poucos para não empelotar. Se possível, por baunilha. Deixa um gosto bom e perfuma a cozinha. Para os mais velhos, se põe canela, se gostarem.

Minha bisavó fazia quando minha avó era pequena. E ficou essa magia simples de que, enquanto minha avó falava isso, eu imaginavaDona Inácia Judith, de avental, cozinhando mingau para as filhas e explicando que aquilo passava, que era um santo remédio. Eu, pequena, sentada em cima de almofadas para alcançar a mesa da cozinha, assistia impassível minha avó cozinhando no fogo baixo a maizena. Hoje, é meu filho quem fica me ouvindo, enquanto cozinho o mingau e conto história de sua bisavó, sua tataravó.

Magia antiga, poderosa. Amor transformado em papa doce e quente, com gosto de chocolate.






e aqui, outra história de como isso é significativo...

5 comentários:

Pietra disse...

Evoé!

Ideário disse...

Isso num é remedio, é brigadeiro!!!!! Os alopatas deveriam saber q remedio bom é doce!!!!Lindo!!!

Tenda de Umbanda disse...

Ahhh.. Sarah.. tão mágico como a sua irradiação em contar isso!!!!

"Magia antiga, poderosa. Amor transformado em papa doce e quente, com gosto de chocolate."

Ameeeeeeeeeeeeei.

Inês Raven disse...

muito lindo!
posso copiar sua família e anotar a receita?

Nydia disse...

O que torna tudo tão eficaz é a conversa que se tem enquanto o remédio é preparado! Fica no inconsciente da criança, e com o ainda por cima é gostoso (meu flho ama!), o efeito é mais rápido ainda. Super-fortificante! Adorei o post.

Aproveito a deixa pra te convidar a passar lá no meu blog. É que coloquei o endereço do blog de uma amiga americama que neste mês de outubro está sorteando todos os dias artigos relacionados ao Halloween, oferecidos por "patrocinadores", eu inclusive. Postei para divulgar entre os blogueiros brasileiros também. A brincadeira está fazendo o maior sucesso, vale a pena, tem coisas realmente lindas.
Se estiver interessada, passa lá!

Beijos da Nydia.